Catarina Correia Martins: Uma pessoa de pessoas
9 Janeiro 2020
Jéssica Moás de Sá

Escrito por

Jéssica Moás de Sá

Este é o primeiro artigo do Populus. Queremos que seja o primeiro de muitos e que este seja um espaço de partilha mútua, de forma a que, as histórias que vos contamos, tenham tanto impacto em vocês, quanto tem para nós a possibilidade de descobrir histórias de vida múltiplas, às quais, esperamos que não fiquem indiferentes. E porque para nós, é aquilo que cada um tem para contar que importa, pensámos que antes de mais, queríamos partilhar convosco aquilo que nós temos para contar da nossa história. Hoje conhecem a primeira de duas autoras desta página: Catarina Correia Martins.

Infância de terra na mão

Não fosse ter uma memória traiçoeira e Catarina Correia Martins tinha, de certeza, mais recordações de infância. Mesmo confessando ter esquecido muitos episódios, tem a certeza de que teve «uma infância muito feliz». Nasceu em Coimbra e passou toda a sua infância numa pequena aldeia deste distrito, o que lhe permitiu crescer na tranquilidade. A rua era a fonte de inspiração para todo um mundo de brincadeiras. A escola que frequentou no ensino primário, apesar de ser na aldeia onde vivia, era ainda um pouco deslocada, o que levou a que, por força dos pais, as aulas fossem apenas da parte da manhã, evitando várias deslocações. «Tínhamos a tarde sempre livre, eu e mais três raparigas, uma delas minha prima, passávamos a tarde a brincar nas casas umas das outras, mas sempre na rua, no terraço ou no jardim», conta. O crescer na rua, acredita Catarina, é muito importante: «Subia às tangerineiras, comia as tangerinas sentada no cimo [da árvore], andávamos na terra, fazíamos bolos de lama» e tudo isso, acrescenta, «só podia ter sido feito naquela idade». E Catarina orgulha-se por tê-lo feito.

A família foi sempre e continua a ser uma base. Aos 25 anos, Catarina é ainda «o amor» do seu avô, forma carinhosa como a apelida. Apesar de, na sua família, não dizerem «a toda a hora que gostam muito uns dos outros», refletem-no em todas as ações que fazem. «Por tudo e por nada fazemos uma festa. Se o meu avô juntou sucata e conseguiu vender, fazemos uma festa. Se a minha mãe trabalhar até tarde, a minha avó faz o jantar. Há muito isso. Tudo é motivo para nos juntarmos», frisa. Catarina acredita, hoje, que a capacidade que teve em estar longe da família em alguns momentos, como quando trabalhou em Lisboa, aconteceu porque sempre soube que a «família sempre foi uma certeza» e que nunca lhe iria «falhar».

Se pudesse voltar atrás e dizer qualquer coisa à menina que foi aos 10 anos, Catarina afirma: «Podia dizer muita coisa, mas se calhar ter-lhe-ia dito para entrar para os escuteiros mais cedo». A autora deste blog acredita que a experiência nos escuteiros «mudou completamente» a sua vida e a «pessoa que é».

Escuta, desenrasca-te

Quando alguém pergunta a Catarina o que são os escuteiros e o que se faz por lá, a resposta «não é fácil»: «É uma pergunta difícil, o que pode parecer estranho, mas nós fazemos tanta coisa, que às vezes fica complicado responder». Tarefa menos complicada é avaliar o impacto que teve na sua vida, a entrada, aos 15 anos, neste movimento. A autora deste blog é escuteira católica, regendo-se por 10 leis, mas há quem invoque, com frequência, uma 11.ª, a lei do “desenrasca-te”, conta, entre risos, Catarina. «Ver o problema e procurar logo uma solução» é, assim, uma das grandes aprendizagens do escutismo, considera a jornalista, mas não a única. O «sentido de comunidade» está também muito presente entre os escuteiros e isso é algo que hoje, como chefe, tenta transmitir aos seus «miúdos»: «Quando um faz bem, todo o bando faz bem. Quando um faz mal, todos fizeram mal. Esse espírito de corpo e que te ensina a vestir a camisola é muito importante», acredita.

Catarina acredita que replica estes valores para o seu dia-a-dia pessoal e profissional porque, explica a autora, «tudo o que um dia é incutido como obrigação» no escutismo acaba por se tornar «inato». O escutismo, defende, «não pode ser um hobbie, tem que ser sim um modo de vida», não se podendo «defender valores com o lenço e não os respeitar quando não se tem». É por isso que não tem dúvidas em afirmar que, mesmo que um dia a vida a obrigue a deixar os escuteiros, sabe: «Escuteira uma vez, escuteira a vida inteira».

Fisioterapia esteve quase no seu caminho

Quis ser «professora» ou «caixa de supermercado» em criança. Mais tarde interessou-se pela fisioterapia, o que fez com que optasse por tirar Ciências e Tecnologias no ensino secundário. Mais tarde e ainda antes de ingressar no ensino superior, começou a perceber que lhe interessava uma parte muito específica da fisioterapia, «o desporto», e que para lá chegar teria de ultrapassar «um caminho longo de coisas das quais não gostava». Chegou a meio do 12.º ano sem saber em que curso queria entrar. Foi nesse momento que, com a psicóloga escolar, encarregada de orientar os alunos no seu futuro académico, visitou a Rádio Universidade de Coimbra e o jornal A Cabra, também universitário. Estava dado primeiro passo. Catarina soube que passava pela comunicação o seu futuro. Optou por tirar Comunicação Social na Escola Superior de Educação de Coimbra.

Desde pequena que Catarina sabia que queria entrar no ensino superior em Coimbra. «Estudar em Coimbra tem de facto uma mística especial», garante, mesmo reconhecendo que quem é natural de Coimbra vive «uma Coimbra diferente» de quem chega de fora. Mas desde a escola primária que os professores incutem, de forma natural, que o objetivo é, um dia «vestir capa e batina». Antigamente, conta, «o cortejo realizava-se à terça-feira e os estudantes iam às suas antigas escolas secundárias e básicas, tirar toda a gente das aulas para irem para o cortejo». Toda esta envolvência, a par da praxe, pela qual Catarina «é completamente apaixonada», marcaram-na muito. A praxe, acredita «cria um espírito de corpo» que só quem «vive entende».

Catarina acabou o curso e depois de algumas experiências profissionais, há dois anos que trabalha num jornal e numa rádio locais. Aquilo que mais a fascina no jornalismo é a «possibilidade de contar histórias». No jornalismo regional encontrou a sua verdadeira paixão, por lhe permitir «saber perfeitamente para quem está a falar» e também pelo contacto mais próximo com as pessoas. Este tipo de jornalismo, frisa, «permite dar palco a uma pessoa que não teria num órgão de comunicação nacional».

“Inquieta-me a ganância”

Catarina diz-se uma «pessoa de pessoas»: «Acho que as pessoas são algo de extraordinário. Não concordo com aquela frase que diz “quanto mais conheço pessoas, mais gosto de animais”», frisa. É por isso que, aquilo que mais a inquieta é que algumas pessoas não pensem naqueles que os rodeiam: «Inquieta-me que uma pessoa saiba que tem o suficiente para si, que há pessoas que têm muito menos e mesmo assim que continue a querer mais». A poucos meses de casar, o que mais quer é construir a sua própria família: «Quero muito ter filhos, três pelo menos. Ter a minha casa, se possível, com jardim para as crianças brincarem», assume entre risos. A nível profissional quer «ser surpreendida», com a certeza que ainda tem «muita coisa para fazer».

O que é que os leitores podem esperar de ti, neste blog?

Podem esperar muita verdade, pelo menos é isso que eu vou tentar. Eu quero muito contar histórias, é esse o objetivo do blog e quero, acima de tudo, contar histórias de pessoas que se calhar passavam despercebidas. Quero que se perceba que qualquer feito da vida, de qualquer pessoa, pode ser um grande feito. Qualquer coisa que tu faças que outra pessoa não faça, pode fazer de ti o herói dessa pessoa. Vou tentar ser muito verdadeira, quer na escolha das histórias, quer depois na reprodução delas. E acho que, aquilo que vamos ambas tentar com o Populus, é passar paixão, paixão por aquilo que fazemos e paixão pelas pessoas.

Preferias…
Livro ou filme? Livro
Filmes ou séries? Filmes
Noite ou dia? Dia
Estação do ano? Verão, sem dúvida nenhuma
Doce ou salgado? Salgado
Ir ou voltar? Voltar
Cor preferida? Amarelo mostarda
Cidade ou Campo? Campo
Mar ou Rio? Rio

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