Jorge Pina: Ver com a alma
23 Janeiro 2020
Jéssica Moás de Sá

Escrito por

Jéssica Moás de Sá

Abrimos mais um livro, neste caso, o livro de um lutador: Jorge Pina. Foi um dos melhores pugilistas de Portugal. Hoje tem 43 anos, mas aos 30 a sua vida mudou drasticamente. Durante um treino de boxe, percebeu que algo não estava bem com a sua visão e depois de um descolamento da retina ficou apenas com 10% da visão. Teve que se reinventar, no desporto e na vida. Hoje é atleta paralímpico e tem uma fundação com o seu nome, onde ajuda, outras pessoas a encontrar o seu caminho, tal como ele encontrou o seu. Já representou Portugal nos Jogos Paralímpicos de Pequim, em 2008, de Londres em 2012 e do Rio de Janeiro em 2016. Não baixou os braços até aqui e nesta entrevista tudo indica que o futuro continuará a ser de luta e novos objetivos.

O desporto como mudança

Jorge Pina nasceu em Portimão, mas foi em Lisboa, no bairro social Santos ao Rêgo que cresceu. Admite, por isso, que desde cedo aprendeu «a ser diferente, a ter que lutar para conseguir as coisas, a escolher os melhores caminhos, onde deveria e podia estar». No seu caminho, do qual o desporto já fazia parte, apareceu o boxe, por impulso de um treinador. Tinha apenas 11 anos mas apaixonou-se pela modalidade, que era uma forma de se «desafiar, descarregar a raiva, os stresses», mas acima de tudo, Jorge Pina queria que, através do desporto, lhe fossem incutidos «certos valores e pudesse aprender com eles». O atual maratonista não tem dúvidas, o desporto pode moldar a vida de qualquer um, de uma forma benéfica: «Se nós praticarmos e encararmos o desporto de uma forma saudável e sã, se não quisermos o desporto para o nosso ego, pode ser positivo. Há muitas formas de ver o desporto. Eu vi no desporto uma forma de mudar, de me moldar e de me conhecer», defende. Em 1995 tornou-se atleta do Sporting Clube de Portugal e venceu vários títulos, individuais e coletivos. Em 2004 foi quanto tudo mudou. «Estava num treino e comecei a sentir algo estranho no olho, perguntei ao treinador se tinha alguma coisa, mas ele não viu nada. Fui ao oftalmologista, mas ele não me conseguiu elucidar sobre a gravidade do problema, por isso continuei a treinar e foi quando tive um descolamento da retina», conta. Foi alvo de várias operações, mas acabou mesmo por cegar.

“Tranquilidade é quando aceitamos”

Não houve raiva, nem consigo, nem com os outros. Jorge Pina aceitou o que lhe tinha acontecido com «tranquilidade», possível, garante, «quando se aceita» aquilo que nos acontece. «Quando não aceitamos a realidade tornamo-nos pessoas revoltadas, a procurar respostas constantes, a tentar encontrar algo que nos faça culpabilizar os outros. Quando aceitamos, tudo se torna mais fácil, deixamos de pensar no problema e vamos ao encontro de uma solução para nós», frisa.

O atleta tem a certeza que foi assim que reagiu: «Fui à procura de felicidade, aceitei o meu problema e hoje sou feliz». Mais do que isso, Jorge Pina assume que hoje “vê” mais do que via quando tinha visão total e que se tornou uma pessoa «muito menos egoísta». «Hoje consigo olhar mais para os outros, olhar para dentro e não para fora. Procurar olhar mais para o ser do que para o ter. Aprendi a pensar mais nos outros, às vezes até mais do que penso em mim», afirma.

Associação Jorge Pina

Foi precisamente a pensar nos outros que formou, em 2011 a Associação Jorge Pina. Uma associação que se destina «a todos» por ter como objetivo, precisamente, a «inclusão»: «Ela [a associação] tem o meu nome mas é de todos que queiram fazer parte dela». A missão da associação, frisa, «é passar valores a pessoas com deficiência ou não», porque todos «precisam de ser felizes, encontrar a essência da vida, perceber o que estão aqui a fazer e o que podem fazer por eles e pelos outros. Quando fundei a associação foi a pensar nisso», destaca.

Por ter crescido num bairro social, lembra também que o trabalho da associação se destina a todos os que não tenham «possibilidades de praticar desporto», devido a um contexto económico e social menos favorável. A estas pessoas, Jorge Pina deseja que não precisem de passar pelo mesmo que passou para começarem a “ver” melhor, a terem «uma visão do mundo e da vida diferente».

Estes valores são passados essencialmente através do «desporto, palestras e aulas», muitas delas desenvolvidas pelo próprio Jorge Pina, que se desloca a várias escolas. Para já, a presença da associação faz-se sentir de uma forma mais efetiva na zona de Lisboa, mas está a iniciar-se uma «delegação no norte» do país. Hoje a instituição conta já com uma equipa técnica de «10 elementos, fora todos os voluntários que não estão sempre presentes», mas continuam a ajudar.

Jorge Pina está satisfeito com o trabalho desenvolvido até aqui, mas há ainda um sonho maior por cumprir. «Falta construir um espaço, a sede social. A Câmara cedeu-nos um espaço que está em obras, que se vai tornar na Academia Jorge Pina», conta. A ideia é que este espaço tenha «vários estúdios, salas de estudo para os miúdos, um espaço de meditação e que se torne numa “casa” para receber as pessoas», adianta o atleta que acredita que assim se poderá «ajudar cada vez melhor, com mais eficácia, não só na parte física como no acompanhamento aos jovens e famílias».

A exclusão somos nós que a fazemos

Não foi logo na maratona que Jorge Pina se estreou no atletismo. Começou em distâncias diferentes, mas viu na maratona a melhor forma «de integrar um projeto paralímpico e conseguir estar presente nesta prova». Ser maratonista tem sido «uma experiência muito boa» para o atleta.
Para conjugar o trabalho da associação com os treinos, Jorge Pina tem que acordar cerca das «seis da manhã para às sete já estar a treinar». O resto da manhã e da tarde é passada a «dar aulas, em palestras e a planificar o restante trabalho». Só regressa a casa «por volta das 22 horas e até dormir tem que ser a correr», expressa, entre risos, o atleta.

O maratonista encontrou claramente uma forma de ser feliz e lutar contra as adversidades. A «forma como se reage» a tudo é para si a chave. Como atleta paralímpico acredita que existe ainda alguma «exclusão social», no entanto, «na maior parte das vezes são as pessoas que se excluem a elas próprias»: «Quando se fecham, quando se metem nos guetos, quando não saem dos bairros», defende. Jorge Pina diz ainda que por vezes são as pessoas que «colocam estigmas sobre si próprias, antes de algo acontecer». É precisamente para mudar esta forma de pensar que o atleta quer continuar a trabalhar, para poder transmitir, através da sua associação que: «Às vezes temos que ser nós a ir à procura, a dar o passo e a acabar com o estigma».

Deixe aqui a sua mensagem

Outros posts

Ana Patrícia: Na linha da frente

Ana Patrícia: Na linha da frente

Ana Patrícia, de 24 anos, é enfermeira numa Urgência Geral de um Hospital Central em Lisboa e, hoje, conta-nos a sua história e o que é trabalhar em plena pandemia de COVID-19, depois de terminar a licenciatura na Escola Superior de Saúde da Guarda.