Victor Vaz: A altura não reflete o tamanho dos sonhos
6 Fevereiro 2020
Jéssica Moás de Sá

Escrito por

Jéssica Moás de Sá

O protagonista desta história tem 40 anos. É anão, nasceu em Ervedosa, uma aldeia do concelho de Vinhais, distrito de Bragança, e leva a vida a animar os outros. Já trabalhou no circo, escreve poesia e é um exemplo de olhar positivo sobre a vida. O seu nome é Victor Vaz, mas se estiver em personagem, chamem pelo Vitinho.

Alma de artista

«Uma infância normal, como qualquer outro menino baixinho», é assim que Victor Vaz descreve a forma como cresceu, apesar de reconhecer que sempre se sentiu «muito acarinhado» por todos na aldeia. Admite que, por ser anão, era muitas vezes, «o centro das atenções e mais mimado» por todos, inclusive na escola: «Os professores castigavam-me, mas também me davam colo, iam ao café e compravam-me bolachas», conta. Nunca este carinho foi numa perspetiva que o fizesse sentir «um coitadinho», porque, frisa, na aldeia era «uma pessoa normal», o Victor sem rótulos.

Foi nas grandes cidades, ao contrário do que se pudesse esperar, que encontrou as primeiras manifestações de preconceito. Não tem dúvidas em afirmar que os portugueses são um povo «muito preconceituoso», ao contrário «do que fazem crer»: «A sociedade precisa de mudar. O facto de ver as pessoas e julgá-las como são fisicamente e não interiormente é totalmente errado». Victor sempre soube que «ser artista», fosse de que forma fosse, estava na sua génese. Em pequeno tocava piano, mas ainda não era esse o seu destino. Fez da sua fraqueza a sua força: «O facto de ser baixinho já é um pretexto para animar os outros, porque tudo o que é pequenino é engraçado», acredita. Começou o seu percurso nesta área, ainda antes de tirar o curso de Animação Sociocultural, no circo. Há oito anos tirou então o curso e a partir daí já fez de tudo: eventos anuais temáticos, como é o caso do Natal, casamentos, festas infantis…Com as crianças o trabalho que desenvolve é essencialmente «montagem de balões e pinturas faciais» e, garante, as crianças são suas «amigas»: «Elas gostam de mim porque sou da altura delas», brinca. Em relação aos adultos, a animação é diferente: «Conto anedotas, canto, tento entretê-los da melhor maneira, o trabalho de um animador é muito esse, entreter», explica. Victor considera que «as pessoas em geral não se sabem divertir e precisam de ser guiadas» e aí que entra o Vitinho.

Esta ocupação permite que o transmontano consiga atingir uma das coisas que mais o realiza: «Fazer os outros felizes». Quando participa nos eventos recebe um feedback muito positivo, pedem-lhe «para tirar fotografias» e agradecem-lhe a forma como se entrega. A sua forma de retribuir é através do abraço, conta: «É um gesto simples mas que vale muito e que hoje em dia nas famílias e no seio dos amigos não é praticado. Há pudor de dar um abraço, mas um abraço significa muita coisa. Recebo e dou muitos abraços». Victor acredita, de facto, que pode fazer a diferença e que uma festa sem ele se faz, «mas não é a mesma coisa».

A felicidade são momentos

Não se diz «feliz todos os dias», porque isso «é impossível» para qualquer pessoa mas garante que procura a felicidade «o máximo possível» e que hoje consegue olhar o mundo de uma forma mais tranquila. «Já fui infeliz. A palavra “anão” nem sempre foi fácil de ouvir, embora dependa da forma como se diz. Mas hoje procuro ser feliz», afirma. Victor questiona mesmo: «De que adianta ser grande e não ter cabeça, ser bonito por fora e por dentro ter um espírito mau?» e deixa uma mensagem, «quem despreza e faz pouco dos outros, está a fazer pouco de si próprio».

Houve dois momentos marcantes na sua vida, permitidos pela sua atividade profissional. Não esquece a primeira vez que andou de avião e a primeira vez que viu o mar. Já esteve na Suíça e em Angola em trabalho, experiências das que gostou muito. Teve também oportunidade de conhecer Portugal de norte a sul, e foi pelo sul que o seu coração se apaixonou: «Gostei muito do Algarve, acho que é um local diferente do resto do país. O facto de ter muitos estrangeiros ajuda. Eles ensinam-nos o que é simpatia». No mar encontrou o refúgio perfeito para a sua ansiedade. Atualmente vive no interior, em Marco de Canaveses, e não poder ver o mar com mais regularidade entristece-o: «O mar é uma força fora do normal».

Falta-lhe ainda cumprir um sonho: editar a sua poesia. A escrita é uma paixão desde sempre e é a partir dela que faz as «confissões mais íntimas». Não crê que seja necessário um momento «muito nobre» para encontrar inspiração porque esta está, na sua opinião, nos «momentos mais simples». Não conseguimos cumprir o sonho de editar o seu livro de poesia, mas aqui deixamos alguns dos seus versos, para partilhar com quem nos lê.

A fé: Uma vida
Uma confiança partilhada
e proclamada…
Um encontro,
um caminho,
uma aventura.
A certeza de ser amado e
de poder enfim amar…
Uma igreja,um credo,
um povo a que nos agregamos.
Um pai que entrega o seu filho por amor,um filho
que dá a sua vida por amor
e que envia o
espírito,o espírito do amor.
Um pequeno grão
que se torna numa árvore,
uma luta:um combate pela paz,pela justiça e pelo bem-estar de cada um de nós…
A fé:uma vida,um amor,uma fonte inesgotável para a ete06rnidade.

Victor Vaz

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