Marta Geadas Durán: Viajando à boleia da Marta
20 Fevereiro 2020
Jéssica Moás de Sá

Escrito por

Jéssica Moás de Sá

Este texto é uma viagem liderada por Marta Geadas Durán. Desengane-se quem pensa que os seus 24 anos não lhe permitem traçar um roteiro certeiro. É que a Marta é a personificação dos verbos: ir e desenrascar. As viagens são a sua forma de vida. Em 2016 criou o blog As boleias da Marta e foi, literalmente à boleia, que começou a viajar pelo mundo. Agora conta-nos o segredo para se viajar de forma tão livre e libertina, como faz tão bem.

Voluntariado foi o mote

Atualmente Marta tem 23 mil seguidores no Instagram, rede social onde é mais seguida. Recuando no tempo, quando aos 18 anos viajou pela primeira vez para Moçambique, não imaginava o que o futuro lhe reservaria. Esta viagem aconteceu por acaso, depois de se ter inscrito num grupo social de voluntariado em Lisboa, de onde é natural e de ter ido para o país africano em missão. O voluntariado, mais do que uma satisfação pessoal, trouxe-lhe um novo amor: as viagens. A primeira viagem para este destino foi em 2014 e voltou em 2015 a África, desta feita a Cabo Verde. Marta sempre soube e voltou a reforçar a ideia de que não queria, de todo, «um caminho convencional, um percurso escolar em linha reta», que não a deixasse “voar”. Fugir da “norma”, denotava-se, já aqui, estava no ADN de Marta.

«Conhecer lugares, pessoas, as ruas, a cultura, a gastronomia» tornou-se viciante para Marta, que a partir de uma certa altura já só pensava «na próxima viagem». O facto de ter começado a viajar para destinos onde as condições socioeconómicas são desfavoráveis foi também um fator preponderante: «Foi marcante conhecer e viver num contexto em que existia poucas posses, fracos acessos, sem internet, sem telemóvel, caminhar para ir buscar água, por isso, depois, queria conhecer mais e mais pessoas noutras partes do mundo» que vivessem assim, frisa.

A lisboeta é formada em Comunicação Social, mas nunca pensou exercer a sua formação por uma via clássica, sobretudo porque não se imaginava a escrever «sobre algo sobre o qual não estava interessada». Por isso, quando terminou o curso, o blog de viagens pareceu-lhe o caminho certo. Assim nasceu o “Boleias da Marta” e hoje, apesar de já não viajar 100% à boleia, o nome continua a fazer sentido, porque quem a segue viaja através das publicações que partilha. Ainda antes de terminar o curso, a jovem tinha feito um blog com uma colega com quem fez um intercâmbio quando foi estudar para Macau e também viajar pelo sudoeste asiático, «de mochila às costas e a escrever». Logo aí percebeu a direção que queria seguir.

À mercê dos outros

Para algumas pessoas, a ideia de ir à boleia para outra parte do mundo é assustadora, por isso, conhecer a história da Marta pode ser inspirador. A primeira boleia que apanhou sozinha foi “nas nuvens”, ainda no avião que a levava para Genebra. Marta queria apanhar a sua primeira boleia já em terra, mas a sua veia comunicadora antecipou-se: «Eu ia no avião a falar com uma senhora que ia para Lausanne e por acaso já ia a pensar como eu própria iria para lá, e logo ali arranjei a minha primeira boleia», conta.

Marta recorda também a segunda boleia, esta já numa estação de serviço, depois de três dias de estada em Lausanne. «Queria ir para a Alemanha e nesta fase já estava sozinha, à mão de quem quisesse parar. Passado 10 minutos de lá estar, parou um jaguar. Falei com o senhor e ele deu-me boleia, não me foi levar à Alemanha, mas deixou-me uns quilómetros mais à frente, eu ando à boleia pouco a pouco», explica, contando ainda que quando parou o senhor lhe deu «10 francos suíços para beber um café». Esta generosidade espantou Marta: «Estava a dar-me boleia e ainda me deu dinheiro para um café. Ele disse que me queria ajudar». A questão monetária foi uma das principais razões para que a jovem começasse a pedir boleia. «Lembro-me que para chegar à Alemanha desde a Suíça, gastaria de transportes 200 euros, dinheiro que na altura não tinha», refere Marta, admitindo que atualmente as boleias «são mesmo por gozo».

No final desta viagem à boleia pela Europa, que durou dois meses, a lisboeta visitou 11 países, «sempre à boleia». E há receios? «Já tive receio, algumas pessoas mostraram ter segundas intenções e há pessoas que não transmitem tanta confiança, mas nunca tive medo mesmo, apenas desconfiança», garante. Neste processo já ganhou «muitos amigos de coração» e frisa que em qualquer parte do mundo há «sempre alguém que ajuda». Exemplo disso foi uma viagem que fez entre Lisboa e Marrocos, uma das histórias «mais marcantes». Marta pedia boleia já em Marrocos, mas ainda a 600 quilómetros de Marraquexe que era o seu destino final e houve um casal que parou: «Convidaram-me para ficar em casa deles, porque não iam para Marraquexe, mas queriam dar-me casa, estadia e alimentação e no dia seguinte iam-me deixar na estrada para seguir viagem». O casal ganhou tanta afeição a Marta que no dia seguinte fez os 600 quilómetros para a deixar em Marraquexe. «Foi incrível», recorda.

O futuro

Marta consegue atualmente fazer alguns trabalhos pontuais que lhe permitem tirar algum rendimento através do blog e das viagens, mas ainda não é disto que vive. «A forma como me financio e sempre me financiei foi a trabalhar nos tuk tuk, em Lisboa, no verão. Consigo juntar bastante dinheiro e dessa forma consigo viajar durante alguns meses», explica. Ultimamente Marta tem estado também inserida nalguns projetos, um deles a decorrer agora onde está a percorrer Portugal e a dar palestras e apesar de não receber um ordenado, as «ajudas de custo» permitem-lhe viajar a trabalhar ao mesmo tempo. Já estagiou também um ano na área da comunicação na UNICEF, em Guiné-Bissau. Hoje tenta conciliar atividades que lhe permitam «trabalhar e viajar» ao mesmo tempo. Através do Instagram já se aliou a algumas marcas, para a divulgação de produtos, mas estes são também trabalhos esporádicos.

Mas e no futuro, é para viver disto? Marta tem um projeto a arrancar de «liderança de viagens», ou seja, quem quiser viajar com a jovem vai pagar pelo serviço, onde esta será a guia. As viagens devem arrancar no próximo ano, apenas com três viagens anuais, mas a ideia é que o número de viagens aumente, se o retorno se mostrar positivo. A lisboeta quer mostrar que para ter este «estilo de vida» não é preciso ter muito dinheiro, mas sim «garra e força de vontade». Apesar de reconhecer que não fica em hotéis nem faz programas caros, Marta garante que gasta mais dinheiro a viajar do que se estiver «na sua rotina normal» em casa. Exemplo disso foi a recente viagem que fez de bicicleta a Guiné-Bissau. Sim, leu bem, de bicicleta.

De Lisboa a Guiné-Bissau em bicicleta

Um mês e meio de viagem, foi o tempo que Marta levou a chegar a Guiné-Bissau. A maior parte do caminho foi feita com a amiga de duas rodas, e outra parte «à boleia e de transportes». Uma experiência «incrível, das mais desafiantes a nível físico e psicológico»: «Eu não fazia exercício há um ano, nunca tinha feito uma viagem de bicicleta e não tinha uma bicicleta boa para viajar. O que quis mostrar a mim mesma foi que é possível ir, nem que seja com uma bicicleta podre. Basta querermos, que o corpo se adapta».

Marta inspirou-se noutros viajantes que viu de bicicleta quando esteve na Guiné-Bissau e como queria lá voltar, decidiu fazer-se à estrada dessa forma. O «início foi o mais complicado», sendo que Marta começou a viagem com um amigo na primeira semana e depois ficou sozinha: «Quando o meu amigo foi embora, tive algum medo, nos primeiros dias sozinha. Estava sozinha por campos e não via ninguém, mas depois só queria estar sozinha. Habituamo-nos a estar sozinhos». Para «dormir, tomar banho, carregar o telemóvel», Marta acampava. Em Marrocos acampou por 2 euros por noite, frisando que estas viagens podem ser mesmo baratas.

As Boleias da Marta já levaram os seguidores «a 34 países», diz Marta, embora pouco segura que o número esteja mesmo atualizado. «Não sou muito de contar países e houve muitos que repeti», explica. Há dois países que a marcaram muito: o Nepal, onde esteve cinco meses a dar aulas de português e a Guiné-Bissau, onde volta sempre que pode e para onde vai liderar as viagens como guia. Não consegue eleger o país mais bonito, mas a Índia é um dos que mais a surpreendeu: «A Índia surpreende em cada canto, a comida, as pessoas, a cultura».

A Marta vai continuar a dar boleia e a ir à boleia. O blog vai existir «até quando fizer sentido» e a jovem espera que faça «durante muitos anos». Apesar de estar longe de amigos e família, as viagens têm sido «muito recompensadoras» e por isso espera continuar a «inspirar» as pessoas, tanto quanto se deixa inspirar pelo mundo.

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