Mia Novais: Alterar hábitos e mentalidades por uma causa
27 Fevereiro 2020
Catarina Correia Martins

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Catarina Correia Martins

Maria Novais, ou Mia, como todos a conhecem, é ativista. A defesa dos animais é a sua causa. E quisemos que nos contasse a sua história porque, hoje, quase parece moda insurgirmo-nos contra as touradas, inflamarmo-nos nas redes sociais contra os maus tratos aos animais… No entanto, as atitudes que temos nem sempre espelham as palavras que escrevemos ou dizemos. A Mia não é assim. Além de se ter convenientemente informado sobre o assunto antes de assumir qualquer posição, mudou os seus hábitos e tornou-se ativista para, de alguma forma, poder levar outras pessoas a perceber esta realidade.

Mudar os hábitos de “uma vida”

Cresceu, «como toda a gente», a comer carne. «A maioria das pessoas normaliza o facto de se comerem animais. E apesar de, desde miúda, sempre ter adorado animais, quando estava a crescer, nunca pensei nisso», afirma. Maria Novais quis mesmo ser toureira, «porque adorava a interação com o cavalo e do cavalo com o touro» e «como sempre que via touradas, diziam que as estacas eram espetadas numa zona que não doía» ao touro, nunca achou que «aquilo fosse alguma coisa de mal». Foi, todavia, por volta dos 14 ou 15 anos que começou «sozinha» a perceber que «aquilo não era normal e que quando se sangra, independentemente da zona, dói sempre». Este foi o primeiro passo para que Mia, além de mudar os seus hábitos, mudasse a sua mentalidade. «Acordei, abri uma janela e percebi: “Epá, conseguimos fazer melhor do que isto, conseguimos ser melhores”», conta.

Começou por ser vegetariana – abdicando de peixe e carne nas suas refeições –, mas mais tarde percebeu que não chegava e que devia tornar-se vegan, deixando de lado todos os derivados, produtos testados em animais, «ser vegan é, em tudo aquilo que fazes, tentar causar o mínimo impacto possível», explica. «Se for [uma decisão tomada] em prol dos animais, se calhar ser só plant-based [ter uma alimentação à base de plantas, consumindo os alimentos na sua forma mais natural, não havendo espaço aos refinados ou processados, por exemplo] não chega. Mas esta é só a minha opinião…», refere Mia.

Para si, há pior do que «a indústria da carne». «Na indústria do leite e dos ovos, os animais são explorados e é das coisas mais horríveis que existe», começa por revelar, exemplificando que «para produzir ovos, as galinhas são exploradas, não vêem a luz do dia e estão constantemente a pôr ovos. Esses ovos, alguns deles, são para criar mais fêmeas, que mais tarde darão mais ovos, todos os que forem machos, logo que nascem são triturados vivos», conta a ativista.

As mudanças e as reações

Uma das questões colocadas muitas vezes por quem sempre teve carne na sua alimentação é como é que quem toma estas opções consegue fazer alterações tão drásticas e deixar de comer o que sempre comeu. Mia responde: «Não me custa porque a partir do momento em que sei que aquilo foi um bebé, que quando o mataram era um bebé, não sinto qualquer necessidade de comer». Diz que isso, deixar de comer animais, foi a maior mudança na sua alimentação uma vez que continua a «comer tudo o que comia antes só que na versão plant-based» e, confessa: «Há muitas coisas que até prefiro assim». «Como basicamente o que as outras pessoas comem, mas tiro o animal do prato, tiro o bife, as salsichas, e coloco outros alimentos que tenham um nível aceitável de proteína», explica.

A reação dos pais ao seu novo estilo de vida foi facilitada pelo facto da irmã mais velha de Mia ser já vegetariana. Lá em casa havia um acordo: «Podes ser vegetariana, mas tens de ser tu a fazer a tua própria comida». Esse hábito não os impediu, no entanto, de ter os receios típicos de pais: «Vais ficar doente, vais ficar com anemia…». Mia admite que faz análises regulamente «para os descansar», pois sabe que está saudável. E adianta mesmo que melhorou a sua saúde «em alguns pontos»: «Antes de me ter tornado vegan, tinha muitos tremores, pegava em sacos e os meus braços tremiam. Tive uma altura em que andava com quebras de tensão, desmaiava do nada, tinha convulsões e estava acordada, o que é uma cena super esquisita. Fiz análises, fiz tudo e mais alguma coisa e ninguém sabe o que eu tinha. Mudei a alimentação e nunca mais voltou a acontecer».

É por isto que não percebe e diz ficar «um bocado chateada e triste» quando os chamados influencers «têm uma alimentação plant-based, mas dizem-se vegans e depois, passados dois meses, voltam a comer carne porque dizem que estavam a começar a ter problemas de saúde». Não negando que possa ser verdade, Mia atribui essas doenças ao facto de «não terem cuidado com o que comem, não fazerem pesquisa…». «Comer à base de plantas é a alimentação que menos mal faz à saúde, portanto…», esclarece.

O ativismo

Quando é que, para Mia, isto deixou de ser apenas uma causa pessoal para passar a sentir a responsabilidade de influenciar outros acerca deste assunto? «No momento em que me tornei vegan, comecei a ver muitos vídeos no Youtube de um ativista, Joey Carbstrong», lembra, «é um ativista muito controverso porque passa a mensagem de uma forma muito forte». Foi através de Joey que descobriu a organização Anonymous for the Voiceless. «O conceito é uma formação de ativistas, na posição de um quadrado, a segurarem computadores e com máscaras dos Anonymous. Nesses computadores, estão a passar imagens da indústria da carne, do leite, dos ovos, do pelo, de testes em animais…», explica. Quando pesquisou acerca de associações do mesmo tipo em Portugal, descobriu que havia uma em Tomar, que estava a organizar um “cubo da verdade” – a tal ação levada a cabo pela Anonymous for the Voiceless – em Coimbra, cidade de que é originária e onde vive. Nestas iniciativas, «não vamos ter com as pessoas para falar com elas, elas é que vêm ter connosco ou vão aos computadores ver o que se está a passar e nós chegamos ao pé delas e começamos a conversa», explica Mia que, logo no seu primeiro “cubo”, falou com muita gente. Gostou tanto que começou a ser a organizadora dos “cubos” na cidade.

Foi através deste evento que conheceu mais pessoas que lutam pela mesma causa. Com duas delas, criou o Coimbra Animal Save, que «é outro tipo de ativismo. Consiste em ir à porta dos matadouros e tentar parar os camiões que vão entrar. Os que quiserem parar, param, se não quiserem, tudo muito bem», explica. O objetivo é «prestar homenagem aos animais que já morreram naquele matadouro e aos que estão naquele momento a entrar». Quando os camiões param, «se os animais não estiverem com muito medo, tentamos que tenham o último – ou o primeiro – carinho antes de morrerem», conta. Além disso, esse momento serve também para a captação de «imagens para depois publicar nas redes sociais, para as pessoas ficarem sensibilizadas e para que percebam o estado em que os animais vão, muitos deles em mau estado», revela.

O que a impeliu a “ir para a rua” foi o desejo de «ter sabido disto mais cedo»: «eu gostava genuinamente que, quando era mais miúda, houvesse alguém na rua que me tivesse mostrado a realidade, que me tivesse dito que era assim que as coisas aconteciam. Se alguém mo tivesse dito, provavelmente ter-me-ia tornado vegan há muito tempo e juntado à causa e ao ativismo mais cedo», afirma. Para Mia, o ativismo ganha valor quando alguém lhe diz: “Obrigada, foste tu que me abriste os olhos e agora sou vegan”. «Quando isso acontece, é uma luzinha no fundo do túnel», frisa.

A terminar a conversa, Mia Novais, de 24 anos, referiu que há «três ou quatro documentários que as pessoas deviam ver»: Dominion, disponível no Youtube, What the Health e Cowspiracy, estes dois disponíveis no Netflix. Além destes, referiu «um que ficou muito famoso recentemente, The Game Changers, que tornou muita gente plant-based, o que é ótimo». «Acho que toda a gente os deveria ver, para ter o mínimo de conhecimento sobre o que se passa, tanto no planeta, como no nosso corpo», termina.

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