Leonor Gomes: Para ser quem é, entregou a alma
12 Março 2020
Jéssica Moás de Sá

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Jéssica Moás de Sá

As seguintes palavras são sobre uma pessoa que nasceu num corpo que não sentia como seu. Não conseguia ser ela própria em público, nem no seio da sua família, onde o amor e os laços de sangue nunca foram fortes o suficiente para procurar entender e aceitar. O Tiago morreu. Nasceu a Leonor. E não é preciso dizer mais nada, porque o testemunho que aqui contamos é um murro no estômago que não necessita nem deve ser simplificado.

“Olhava-me ao espelho e não me identificava”

Tiago nunca foi Tiago, foi sempre Leonor, mesmo que o seu corpo lhe dissesse o contrário. Mesmo que o espelho teimasse em espelhar uma figura que não era aquela que queria ver. As roupas «da irmã» chamavam por si, era nelas que a sua pele serenava. Desde os 8 anos que o sentimento de ser quem não era de facto, a acompanhava. Não era só a parte física e o «órgão sexual» que estranhava, sempre sentiu que era «psicologicamente» uma mulher. No recreio da escola «era na zona das meninas» que brincava e na areia do pátio, estava sempre em busca «da pá cor-de-rosa».

Durante anos a vida do então Tiago foi vivida em bipolaridade: «Era uma pessoa na rua e outra no quarto e íntimo». Aprendeu a reprimir-se devido ao contexto em que cresceu. Aos 5 anos ouviu o pai dizer que tinha «vindo estragar os planos» para a sua vida. Não tinha direito a escovas de dentes novas, por isso era obrigado a reutilizar as «do tio». Foi também obrigado pelo pai a trabalhar nas obras aos 9 anos.

Aos 11 anos Tiago foi apanhado pelo pai «com roupas de mulher», que lhe «bateu», assim como quando o apanhou «a experimentar maquilhagem». Mas Tiago, ou melhor, Leonor, percebeu que se esse «era o preço a pagar» para ser ela mesma, «então estava disposta» a continuar a vestir-se como queria. Durante muito tempo não verbalizou a ninguém o que sentia de uma forma clara e as dúvidas sobre si mesma pairaram na sua cabeça. Este foi um período «muito solitário», onde ninguém a aceitava. A realidade não mudou: Leonor continua sozinha nesta luta, sem um familiar que a apoie. A mãe, por exemplo, nunca foi uma figura presente na sua vida. «Há dois anos» decidiu começar oficialmente o processo de mudança de sexo, contra tudo e todos.

O seu percurso escolar foi também pautado por episódios de negligência parental. Em 2013, a «pressão» que sentiu levou a um desfecho dramático. «Fiquei farta da minha família me chamar inútil, entre outras coisas e foi quando me comecei a cortar até que uma certa noite, lembro-me de estar no quarto com a faca na mão para me cortar e depois de acordar a vomitar com o senhor do INEM ao meu lado, levaram-me para o hospital e foi quando me foi diagnosticada epilepsia», conta Leonor, explicando que este episódio aconteceu depois de ter ido «fazer as provas a Vila Nova de Gaia» para o Exército e de não ter conseguido passar «devido a umas manchas nas costas» que fizeram com que o médico a considera-se «inapta». A epilepsia fez com que tivesse de desistir de todos os sonhos que tinha relacionados com o Exército e com a GNR.

Leonor está já em processo de mudança de sexo

Em 2018 Tiago decidiu que ia deixar de ser Leonor apenas no seu íntimo e efetivar uma mudança de sexo visível a todos. O tratamento tem várias fases. A primeira de todas é uma avaliação psicológica do paciente, feita por psicólogos e sexólogos. Sendo que Leonor já estava a ser seguida no hospital, em Coimbra, pela parte da psiquiatria, o processo foi facilitado por já ser conhecido pelos profissionais de saúde. Leonor estava a ser seguida devido a um problema de «disfunção erétil» que era provocada pela componente psicológica: «Eu tentava ter relações sexuais, mas como tinha um corpo que não sentia como sendo meu, não conseguia», conta. Nesta fase de consultas de psicologia, os profissionais tentam perceber se aquilo que os pacientes dizem «é consistente durante o tempo». «Se eu disse hoje isto, amanhã tem de se manter. O efeito das hormonas é mais fácil reverter, basta deixar de tomar. Mas quem quer fazer operações, depois de feitas, já não há nada a fazer», explica.

Depois da avaliação do hospital onde está a ser seguido, o utente tem de ter «uma avaliação independente» noutro hospital. Neste caso, Leonor Gomes conseguiu esta avaliação num hospital de Lisboa. Segue-se a fase da endocrinologia, onde Leonor se encontra, que é uma fase «de estudo do corpo, de toda a estrutura óssea, onde são avaliados os problemas do utente, são feitas análises e exames». Depois vão seguir-se «consultas de urologia e ginecologia». As «hormonas só se tomam no final das consultas todas» porque os médicos têm de estar certos de todas as patologias do paciente, podendo adequar a «dose aos resultados». As hormonas, explica Leonor, «demoram anos a fazer efeito», tempo que depende de cada pessoa, e só depois «do efeito estabilizar» é que são feitas «as cirurgias plásticas» para alteração do órgão sexual.

No início deste processo, «as pessoas que querem mudar de sexo são questionadas pelos médicos se querem guardar gâmetas ou espermatozoides» para poderem ser pais mais tarde. Leonor optou por fazer a colheita: «Tenho cinco anos para dizer se quero ter filhos ou não. Se não quiser ter filhos só preciso de dizer e os médicos destroem. Se ao fim de cinco anos não disser nada, é destruído automaticamente, mas se no final desse período eu disser que ainda não sei, eles guardam por tempo indeterminado».

Isolamento forçado

«De dia, mostro-me forte, mas à noite pareço uma barragem a chorar», a frase diz tudo. Leonor vive em solidão, embora rodeada de pessoas, são poucas às quais se entrega. Por assumir o que é e há vários anos se vestir de mulher na rua, Leonor Gomes já foi confrontada com algumas situações complicadas. Recorda-se de uma fase onde, em Coimbra, eram muitos os casos de violência sobre «quem mudava de sexo e se assumia», momento em que chegou a ter «medo de sair à rua». Mas esse medo «nunca foi um entrave»: «Comecei com as calças de ganga normais, depois passei para as leggings, depois vestidos e por fim saias. A única coisa que ainda não uso é maquilhagem», especifica.

Atualmente está a estudar Engenharia Informática no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra e também neste contexto não tem sido fácil. Diz ter «poucos amigos», mas que prefere «estar sozinha para não incomodar ninguém» porque apesar de haver pessoas que a aceitam «em casa delas», sente-se «sempre a mais». Na turma nunca tem um grupo para fazer os trabalhos, sendo que faz sempre os trabalhos de grupo «com quem já não tem hipótese de escolha». Há pouco tempo fez outra descoberta sobre si mesma, percebeu que é «lésbica» e conseguir ter um relacionamento também tem sido complicado: «Eu já me tentei englobar em grupos LGBT, mas como não sou muito de sair, é complicado. À terça e quinta-feira vou sempre trajada e tento chegar aos grupos das raparigas, mas quando estou quase a chegar junto do grupo, volto para trás e não consigo», desabafa. É neste contexto solitário que Leonor Gomes ultrapassa um processo de mudança de sexo.

Leonor já é Leonor no registo civil

A mudança de nome e de género «foi bastante simples». «Depois de começado o processo no hospital, podemos ir ao registo civil. O hospital dá informação à conservatória de que o processo está a decorrer. Tive de pagar 200 euros para pedir a alteração e assinar toda a papelada e depois foi esperar que o novo cartão de cidadão chegasse», explica Leonor.

Mais difícil foi conseguir, por exemplo, «um certificado de habilitações de 12.º ano já com o nome alterado»: «Estive um mês à espera e a escola inventava desculpas atrás de desculpas», frisa. Com mais ou menos dificuldade, hoje Leonor está a conquistar o seu objetivo: ser quem queria. Quanto aos sonhos que tem depois de terminar todo o processo de mudança de sexo, fala em «ter a própria casa» e «conseguir um bom emprego». «Constituir família» é também um objetivo, embora reconheça que «a vida» é uma incerteza.

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