Daniela Gomes: Encontrou no yoga o estilo de vida perfeito
19 Março 2020
Jéssica Moás de Sá

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Jéssica Moás de Sá

Cresceu num contexto familiar «disfuncional», como diz. Tornou-se «a cuidadora» do agregado familiar muito nova e acha que isso pode ter levado a que um dia quisesse ser enfermeira. Mas o mundo trocou-lhe as voltas, e apesar de ter feito a maior parte do curso de enfermagem, atualmente é como professora de yoga que se sente realizada.
Cuidar dos outros está-lhe na génese.

Não teve «a vida mais difícil do mundo», reconhece, mas cresceu no seio de uma família «disfuncional», não tem dúvidas em dizê-lo. Aos 27 anos, Daniela Gomes consegue fazer essa análise de uma forma muito estruturada: «Nós éramos uma família disfuncional, mas que conseguíamos funcionar juntos, estando os quatro, quando um dos elementos saía é que descambava», conta. Tem um irmão mais novo três anos e é a prima mais velha tanto do lado materno como paterno e isso fez com que se tornasse desde sempre muito «protetora», sobretudo face ao irmão. Lembra-se de aos «seis ou sete anos» ser quem «fazia o pequeno-almoço do irmão, tratava dos lanches, escolhia-lhe a roupa e vestia-o». Para os pais essa situação «tornou-se muito confortável» e Daniela, nessa altura, nem se apercebia que esse não era o seu «papel».

«Os meus pais viram que eu era uma menina muito desenrascada e começaram a deixar que isto fosse assim», conta. O pai era distante porque era «muito focado no trabalho», chegava a passar muitas noites fora «porque ficava noutras cidades a trabalhar de uns dias para os outros» e quando vinha para casa era sempre depois das 22 horas, embora Daniela reconheça que os domingos eram sempre «dedicados à família» e era a altura em que estavam «os quatro juntos». Nunca houve também carências económicas: «Nunca nos faltou nada, sempre tivemos uma vida bastante confortável». Quanto à mãe, Daniela diz que, devido à bipolaridade que lhe foi diagnosticada mais tarde, sempre foi «uma pessoa muito instável». «Havia alturas em que estava muito feliz e havia alturas em que estava muito deprimida e só gritava. Lembro-me de toda a minha vida ter visto a minha mãe a gritar, sempre a ralhar, sempre a reclamar com tudo. A justificação é que não estava feliz no casamento, nem no trabalho. Nunca estava feliz com nada. Mesmo estando em casa era uma mulher muito focada nela própria, sentava-se no sofá a ver filmes horas a fio», conta. O facto de nunca ter sido um sonho para ela «ser mãe» ajudou a que nem nos filhos «encontrasse tranquilidade» e mesmo estando em casa «era uma pessoa emocionalmente ausente». Quando Daniela fez 22 anos, os pais acabaram por se divorciar.

Esta «dinâmica familiar» fez com que se tornasse uma pessoa «fria e racional», embora se sinta diferente por causa do yoga (já lá vamos). Nunca gostou muito «de estar com pessoas», considerando-se «relativamente introvertida» e sempre teve dificuldade em «ter relacionamentos e manter amizades». Acredita que isto aconteceu porque se habituou «a contar» só consigo mesma, fechando-se em si própria. Na vida mantém por isso um grupo restrito de amigos, um deles de um grupo muito especial, onde considera que encontrou «as bases educacionais» que lhe faltaram no seio familiar: os escuteiros.

Hoje em dia mantém uma ligação pouco presente com o pai, com quem fala ao telefone com alguma frequência, mas com quem está presencialmente «apenas umas cinco vezes por ano, em festas e celebrações, apesar de viver a cinco quilómetros». Reconhece que se tiver um problema sabe que ele a irá ajudar, mas tirando isso, é pouco o relacionamento que mantêm. Com a mãe acaba por ter uma relação mais próxima, mas que não é «de mãe e filha, mas sim de duas irmãs»: «Discutimos como irmãs e como ela própria diz, eu é que sou a irmã mais velha, eu é que a oriento na vida dela». Foi na avó, que ficou viúva muito cedo e de quem se tornou companhia desde pequena, que encontrou uma figura materna. Pedia aos pais para passar os fins de semana em casa dela e quis o destino que, agora, fosse a sua morada.

Ser cuidadora nata levou a que quisesse ser enfermeira

O percurso académico de Daniela Gomes foi também comprometido. Em pequena queria ser médica e bailarina. Apesar de ter sido sempre «boa aluna e ter boas notas», chegou ao secundário e percebeu que a exigência de estudo da Medicina não era bem o que procurava. Decidiu então ir para enfermagem, porque se toda a sua vida foi cuidar, achava que «os únicos trabalhos que podia ter era a cuidar de pessoas». No entanto pôs outras opções, como Psicologia, Arqueologia e História. Acabou por entrar em Psicologia em Coimbra, e fez o primeiro ano do curso. Tudo mudou quando regressou a casa no verão, na pausa das aulas, e percebeu que a sua família não estava «nada bem, uma desorientação total». «O meu irmão estava completamente sem rumo, tinha entrado no mundo das drogas, a minha mãe estava cada vez mais fechada e deprimida e o meu pai cada vez mais focado no trabalho», conta. Depois de estar um «verão inteiro naquilo» não teve «coragem para voltar para a universidade» e desistiu do curso para ficar com a família, para tentar «orientar as coisas». Ficou um ano em casa, onde passou pelo processo de divórcio dos pais e depois acabou por voltar a estudar, mas desta vez entrou em Enfermagem, em Lisboa. Fez o curso praticamente todo e quando faltava apenas um último estágio para terminar, foi gravemente atropelada. «Parti a minha perna direita em cinco sítios, parti o joelho esquerdo, fiz um traumatismo craniano, tive que levar 11 pontos na cabeça, fiquei toda negra, parti uma costela. A minha recuperação foi de um ano, estive um mês de cama, três meses de cadeira de rodas e o resto do tempo de canadianas», recorda Daniela Gomes.

De início Daniela pensou que «após a recuperação» voltaria para o curso, até porque lhe faltava pouco para terminar, ou pelo menos era o que achava. «Quando liguei para a escola, eles disseram-me que como ia estar muito tempo afastada, teria que repetir todos os estágios». Aquilo caiu como um balde de água fria para Daniela, que assim decidiu que não iria voltar. Neste processo de recuperação, houve um «período muito complicado», a nível psicológico. O seu namorado na altura, foi a «tábua de salvação» e é a ele e a uma amiga do curso de Enfermagem que agradece «a recuperação». Mas havia ainda outra motivação especial: o yoga. «Nessa altura o que me fazia acordar era querer voltar a fazer yoga, porque tinha começado a fazer meses antes de ter o acidente», conta.

O yoga trouxe o equilíbrio perfeito

Daniela estava cansada de se sentir «sedentária» e da da vida «stressada demais» que estava a ter quando estava a estagiar, antes de ser atropelada. Nunca gostou muito de fazer exercício físico, por isso procurou na internet «formas de desporto relaxante» e foi assim o primeiro contacto com o yoga. Procurou estúdios perto de onde vivia, em Lisboa, e foi experimentar e logo na primeira vez achou «maravilhoso, uma experiência incrível e que era mais do que um exercício relaxante». Foi todas as semanas, sem faltar, e quando sofreu o acidente uma das suas preocupações foi: «Não acredito que não vou conseguir voltar a fazer yoga». Mas conseguiu… E de que maneira.

Quando já estava na fase de recuperação em que estava de canadianas, começou a procurar cursos para professores de yoga. Fascinava-a o «estilo de vida», sobretudo a comparar com a Enfermagem, em que era obrigada a trabalhar «por turnos, a estar presa a uma entidade patronal, onde não existem rotinas e horários certos», algo que não acontecia no yoga, e que já estava a ser stressante para si a estagiar. Este era um trabalho que lhe permitia «ter uma vida mais tranquila» e que lhe dava «gosto a fazer». Assim que lhe foi possível, cerca de 10 meses depois de ter sido atropelada, voltou às aulas de yoga e a partir do momento em que voltou, a sua recuperação «aumentou exponencialmente».

Mas o que é isto do yoga? Segundo a professora há muitas definições, mas há uma da qual gosta particularmente: «O yoga é a arte e a ciência de nos conectarmos connosco próprios». Não tem «dúvida alguma» de que hoje é outra pessoa. «Antes de fazer yoga, eu simplesmente não olhava para dentro de mim, não me conhecia, não sabia quem eu era, o que é que gostava, o que queria para a minha vida. Eu fazia aquilo que eu achava que a sociedade esperava de mim. Eu estava a tirar cursos universitários, não necessariamente porque queria, mas porque era o expectável», admite. Isso fazia com que andasse sempre «revoltada» com as opções que tomava. Hoje as pessoas consideram-na «uma pessoa calma», em contraste com o que era, antes, a sua realidade.

A prática de yoga permite um conjunto de benefícios vasto, refere Daniela Gomes. «Aprendes a olhar para ti, aprendes a tomar consciência das atividades automáticas que tens, como a respiração, aprendes a acalmar, aprendes a respirar convenientemente, esta é a parte de meditação que a longo prazo traz benefícios que reduzem o stress, acalmam mente e corpo. Todos os benefícios da meditação em si, conseguimos encontrar no yoga, porque o yoga é uma meditação em movimento, o que é que isto quer dizer? Que aprendemos a encontrar conforto em cada postura que fazemos. Esse é o objetivo final do yoga, conseguirmos estar completamente em conforto, em êxtase, em bem-estar total em cada postura». Estas posturas, trazem também melhorias a nível psicológico e fisiológico: «São posturas que ativam a desintoxicação dos órgãos vitais, como as torções, que alongam profundamente os nossos músculos, abrem o peito, alongam as costas, trabalham a mobilidade e saúde da coluna e ajudam na concentração. Depois, há certas posturas que também ajudam a trabalhar problemas a nível emocional, como o medo».

Apesar de muitas pessoas terem começado a praticar yoga «por ser moda», na opinião da professora, depois acabaram por ficar porque perceberam que «realmente faz a diferença». Nas suas aulas tem cada vez mais pessoas e uma das coisas que a faz «adorar» a profissão e afirmar que era a «única coisa da qual não conseguiria abdicar na vida» é mesmo perceber as diferenças positivas que nota nas pessoas. «Eu entro para dar a aula e as pessoas estão de uma maneira, eu termino a aula e vejo que a energia das pessoas mudou completamente», refere.

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