Rafael Graça: Um novo olhar sobre as bonecas que todos conhecemos
26 Março 2020
Catarina Correia Martins

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Catarina Correia Martins

Portuguese Dolls é a página de Instagram que deves procurar para saber do que falamos nesta história. Com cerca de 480 publicações e perto de sete mil seguidores, a página retrata as “viagens” de algumas Barbie que passeiam maioritariamente por Portugal, mas não só.

Tudo começou quando Rafael Graça era ainda uma criança. «Sempre tive gosto por coisas em miniatura e em escalas», e exemplifica: «Eu não gostava de brincar com carros que não fossem do mesmo tamanho ou bonecos que não fossem da mesma escala». «Por influência das minhas duas vizinhas do lado que, como duas meninas dos anos 90 que são, brincavam com Barbie e por nunca ter havido nenhuma imposição ou restringimento dos meus pais em relação a isso, eu tive sempre muita abertura para brincar também», começa por explicar. Aquilo que não passava de um jogo de crianças, transformou-se num «gosto pela boneca, pela Barbie em si», que juntava aquilo de que Rafael gostava: «As coisas à escala, as casas, sem querer, aparecia ali uma vertente muito mais social, dinamizava a parte criativa porque nós imaginávamos estórias. Passávamos sábados e domingos inteiros a brincar, construíamos cidades, cada um tinha a sua casa, a sua boneca e o seu boneco, a família, o carro…», lembra.

Como todos, quando chegou à adolescência, Rafael deixou de brincar. No entanto, «sempre que passava no corredor do hipermercado, via aquela prateleira cor-de-rosa e pensava: “Eu gostava de ter uma Barbie”, mas era mais no gozo», afinal, o que faria com uma Barbie? Foi em agosto de 2015 que se deu a reviravolta neste pensamento. No aniversário, Rafael Graça recebeu uma Barbie. «Agora olho para trás e sei que fiquei mesmo feliz. Parecia um miúdo de 10 anos. Acho que foi a melhor prenda que recebi até hoje, porque foi inesperada», recorda.

Esteve cerca de um mês e meio envolto na decisão sobre o que fazer com a boneca. A resposta chegou pela voz de uma colega que atirou: «Porque é que não crias um Instagram para a Barbie? Ela vai aqui e ali… Andas com ela atrás». O pensamento de Rafael, diz, foi: «Nem é tarde, nem é cedo». De acordo com a opinião de Rafael, esta rede social estava ainda numa fase de arranque, portanto levou algum tempo até que a página começasse a ter seguidores. «Com fotos super amadoras, lá de casa, ia arranjando uns vestidinhos… Isto depois começou a envolver a minha mãe. Eu dizia: “Mãe, preciso de um casaco, preciso de uma saia”», conta. Designada Rebecca – The Doll – foi o nome escolhido para a primeira Barbie – a página foi crescendo em ritmo lento. Todavia «o pessoal começou a achar piada» e as primeiras centenas de seguidores foram aparecendo, nos primeiros dois meses.

Em 2016, Rafael, natural de Condeixa-a-Nova, no distrito de Coimbra, mudou-se para Lisboa e foi então que recebeu um contacto da empresa Mattel, que produz as Barbie. «Disseram que gostavam de me conhecer, porque a página tinha imensa piada», avança, acrescentando que numa reunião lhe ofereceram mais uma boneca, neste caso uma que tinha entrado no mercado há pouco tempo, uma das primeiras Barbie com “articulações”, a Olívia. A terceira boneca foi também uma oferta, assim como as cinco seguintes. Estava mais do que na hora de arranjar um nome para a página que fosse suficientemente abrangente para todas as bonecas que pudessem vir. Portuguese Dolls, de acordo com Rafael fácil de entender e internacional, foi o eleito.

O conceito

Rafael Graça afirma que demorou «um ano a tentar chegar ao conceito da coisa»: «Tenho estas bonecas, eu viajo muito, ando sempre de um lado para o outro e gosto muito de passear, vou torná-las bonecas viajantes, onde eu for, elas também vão», e com este pensamento estava o destino traçado. «As bonecas andam ao ritmo da minha vida», refere, admitindo porém que visita sítios propositadamente para poder fazer mais uma sessão de fotos. «Se eu vou de férias, as Barbie é que vão comigo», mas as bonecas também são uma boa desculpa «para sair de casa», revela. Rafael e as Barbie «já foram à Suíça, a Espanha e ao Reino Unido», mas é no nosso país que o jovem tem mais prazer em fotografá-las: «O meu objetivo é passear, mostrar Portugal e o que de bom tem. As minhas fotos não são só “olha eu aqui tão linda em Estremoz”, são “olha eu, aqui tão linda em Estremoz à frente de uma igreja que é do século XIX”. Gosto de dar um bocadinho mais de História, fugir da típica Barbie que não sabe, que é plástica», explica.

Para chegar a um maior número de pessoas e tornar a página o mais abrangente possível, Rafael quer “reformar” algumas das Barbie que tem no ativo e adquirir «uma mais gordinha, uma que tenha um cabelo azul ou rosa». «Sei que as pessoas que me seguem é do mais variado que há. A maior parte do público é feminino – talvez numa proporção de 60 para 40% –, tenho crianças. A maioria é de Lisboa, mas há também Coimbra, Porto e público estrangeiro. Tenho muita gente que segue e eu não sei como são essas pessoas, qual a vivência delas. É por isso que quero mostrar a diferença», esclarece.

“A qualidade está nas fotos”

«Neste momento, eu tenho a página de Barbie mais seguida em Portugal, ponto», afirma, sem falsa modéstia. Porém, sabe que «em Portugal, só é instagrammer ou influencer quem tem mais de 10 mil seguidores». Rafael diz não querer ser «influencer de ninguém», mas sabe que é instagrammer: «Aquilo que eu estou a fazer, há mais quem faça, mas não com a qualidade que eu tenho. As fotos são boas, acho que a qualidade está nas fotos. E eu presto atenção aos detalhes, às roupas, aos temas…», revela.

Rafael Graça diz não querer divulgar-se a si, mas sim a Portugal. «Eu não apareço nas fotos, só elas [as Barbie], e não quero aparecer», frisa e esclarece: «Dou é a cara por elas, a fazer figuras no meio da rua, deitado no chão, em cima de muros, a fazer macacada, a falar com as pessoas que estão a meter-se comigo». A reação das pessoas na rua é algo destacado por Rafael: «Tem sido muito giro… Ver os estrangeiros a tirar-me fotos. À frente do Palácio de Buckingam, por exemplo, eu estava a fotografar e as pessoas a tirarem-me fotos a mim. As pessoas, se calhar, pensam que é mesmo a página da Barbie», atira.

As fotografias são sempre tiradas com uma máquina fotográfica e nunca com um telemóvel, para Rafael é aí que está a essência: «Qualquer pessoa pode tirar uma fotografia com um telemóvel, mas pegar na máquina, estar atento ao que estou a focar ou desfocar… Tem uma qualidade muito diferente e é isso que me dá a “pica” toda, andar de câmara ao peito e boneca na mão», confessa. Rafael é, por norma, a única pessoa a assegurar a logística necessária para tirar a foto, ou seja, «máquina na cara, braço esticado à frente a agarrar a Barbie pelos pés, chega mais à frente, chega mais atrás, para baixo, para o lado» e clique. «Isto, ao fim de cinco anos, já é muito automático», diz. As dificuldades chegam quando em vez de uma, quer tirar fotos com duas ou três bonecas, admitindo mesmo que essa será a sua próxima meta: «O desafio agora seria tirar fotos com três [bonecas] na rua… Talvez no verão tente levá-las à praia e fazer uma coisa gira». Outra das ideias a pôr em prática passa por estrear dois carros recentemente adquiridos.

As luzes da ribalta

A exposição mediática chegou com um convite para o programa Agora Nós, na RTP, em 2017. «Apesar de não ser um programa com muitas audiências, correu muito bem e deu uma grande força à página, especialmente a nível local. As pessoas de Condeixa-a-Nova viram e gostaram», lembra Rafael. Mais tarde, a Fake Blogger, uma outra página de Instagram, partilhou Portuguese Dolls com a seguinte mensagem: «”Bora” lá partilhar aqui alguma coisa com qualidade portuguesa». Rafael garante que essa partilha lhe valeu cerca de três mil seguidores.

Os convites vão-se seguindo e o mais recente veio do programa Alô Portugal, na SIC. «O José Figueiras [apresentador do programa] adorou o projeto em si, porque estou a divulgar Portugal», conta. Esta participação rendeu-lhe mais dois convites, um para uma conferência sobre a importância da mulher no mundo da tecnologia e outro para o Portugal Fashion.

Rafael Graça diz que não se importa «nada» de ir a estes locais, mesmo não recebendo nada em troca, porque acaba por se «divertir»: «Acima de tudo, divirto-me muito com isto. Se eu estivesse a fazer disto vida, estava pobre», atira. No entanto, reconhece que se investisse mais tempo neste seu projeto, talvez pudesse estabelecer parcerias. Num “mundo ideal” «gostava imenso» que isto fosse a sua profissão, «nem que fosse só para representar Portugal», mas depois há a parte racional que lhe diz: «Rafael, trabalha mas é». As Barbie são uma «grande paixão» e as de Rafael vão continuar a viajar e a divulgar Portugal.

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