Tomás Santos: Apaixonado pelo jornalismo
2 Abril 2020
Jéssica Moás de Sá

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Jéssica Moás de Sá
Numa altura em que, devido à Covid-19, percebemos cada vez melhor a importância de estarmos bem informados, com base em fontes fidedignas, contamos, precisamente, a história de um jornalista. Tomás Santos trabalha «na mãe» da comunicação social, como descreve a Agência Lusa. É madeirense e a vinda para Lisboa foi uma das batalhas mais duras da sua vida. Podia ter seguido Psicologia, mas o mundo quis que fosse jornalista e quem o lê, agradece.

Sair do ninho onde foi feliz

Era fácil de prever que para um rapaz crescido numa ilha, o mar, imenso e de alcance imediato para onde quer que os seus olhos convergissem, tenha um papel fundamental. «Recordo com saudade os verões inteiros que passava na praia, as tardes todas no mar e dar mergulhos das rochas», conta Tomás Santos, que hoje, consegue fazer uma análise clara: «Como era bom não ter preocupações e viver preso ao momento». Teve a sorte (para muitos) de crescer «com um quintal muito grande» em casa dos seus pais, onde habitualmente a família se reunia «nas festas». O contacto com a natureza sempre foi privilegiado e não era menino de medos, passando «dias a correr e a subir às árvores». Uma infância e adolescência que define como «muito ativas», com «muito desporto».

«Ser madeirense é aguentar cinco ponchas sem ficar bêbedo», explica, entre risos o jornalista, que acrescenta que «ser madeirense é ir a todos os arraiais de verão, comer espetada e muito bolo de caco». Mas não se falou apenas de diversão e numa versão mais séria, Tomás Santos, aponta algumas qualidades a este povo, que diz ser «genuíno, altruísta e muito acolhedor». Por isso mesmo, não foi fácil deixar o seu “lar” e partir para o continente. «Achava que ia ser horrível e que não ia gostar de sair da Madeira», confessa, admitindo que só começou a equacionar a hipótese de ir para Lisboa a partir de meio do seu secundário. A mudança efetivou-se mesmo para que sonhos se pudessem cumprir, mas «foi duro». Nas primeiras semanas na capital pensou muitas vezes em regressar a casa e as «lágrimas de saudade» eram diárias. Aos 17 anos sentia que não estava «à altura do desafio», nem em «termos académicos», nem em termos de se «desenrascar sozinho e na cidade». O futuro viria a revelar que estes medos eram desnecessários.

Jornalismo, porquê?

Tomás Santos sabia que «gostava muito de falar, de contar histórias», sempre foi «curioso e também gostava de escrever», mas isso não fez com que fosse óbvio, desde sempre, que queria ser jornalista. Podia ter sido psicólogo, esteve nas suas opções, mas depois optou por Ciências da Comunicação, que lhe dava um leque alargado de vias profissionais. Apenas no segundo ano do curso em que começou «a ter cadeiras práticas de Marketing e Jornalismo» é que soube que o seu caminho passava pelo Jornalismo. «Passei de estar indeciso para uma convicção total daquilo que queria fazer», conta. Tirou o curso na Universidade Nova de Lisboa e deste período guarda as melhores recordações: «O ambiente da faculdade por si só era ótimo, tinha muitas pessoas interessantes, os professores também. Tudo conjugado acho que contribuiu para desenvolver um pensamento cada vez mais crítico. Depois fiz o mestrado em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, que me permitiu continuar a aprender e a pensar sobre o Jornalismo e a alimentar cada vez mais o sonho de poder vir a pisar uma redação».

O sonho concretizou-se. Hoje trabalha na Lusa e sente-se totalmente realizado. Sabia que queria «imprensa ou digital» e tinha alguns jornais de referência em mente. A Lusa surgiu quando escolheu para tema da sua tese de mestrado, um tema que envolvia, precisamente, a agência noticiosa. Teve, por isso que estagiar na redação da Lusa, em Lisboa e assim que conheceu o trabalho, a sua «ambição» foi «trabalhar o máximo» e dar o seu melhor «para ter oportunidade de lá ficar». Assim foi. Encara a Lusa, como já aqui foi dito, «como uma mãe para os outros meios de comunicação social», dando as «bases» a vários órgãos de comunicação. Sente esta «responsabilidade acrescida» de saber que tudo o que a Lusa faz é replicado e um «erro dificilmente se apaga e tem um impacto maior». Na agência noticiosa portuguesa, trabalha-se, explica Tomás Santos, «num constante equilíbrio entre a rapidez e o rigor»: «A nossa missão impõe-nos ter uma notícia pronta muito rapidamente, mas também nos obriga a ser rigorosos e a ter fontes identificadas para tudo aquilo que escrevemos». O jornalista frisa ainda que a Lusa «raramente» é a primeira «a dar acidentes ou tragédias» porque quando noticiam, «a informação já vem mais completa e de fontes credíveis». Para a agência não existe: «“A Lusa sabe” ou “a Lusa apurou”. Nem pode existir, a bem da transparência e do rigor».

A importância do jornalismo credível numa era de fake news

Estamos a atravessar uma pandemia e com ela está a crescer, sobretudo nas redes sociais mas não só, a desinformação. Tomás Santos concorda que mais do que nunca, o «jornalismo de qualidade ganha maior relevo» também porque há a perceção de que «nem todos escolhem a informação verdadeira» para esclarecer as suas dúvidas. Os jornalistas estão, por isso, também na «linha da frente em certa medida». «Não estamos à frente dos médicos, dos enfermeiros ou dos que continuam a produzir diariamente para os supermercados e farmácias, mas sem nós ninguém tinha acesso a informação», frisa.

O jornalismo de qualidade «continua a existir» em Portugal, mas «tem de ser bem procurado e decifrado no meio de tanta desinformação e “poluição informativa” que invade as redes sociais», diz Tomás Santos. Há ainda outro problema, considera, «muitas notícias que não passam de entretenimento» e que muitos órgãos de comunicação «veiculam». Em Portugal, podia fazer-se «melhor» jornalismo, acredita, mas também se deveria receber «mais apoios e ter salários melhores».

Pilares imprescindíveis

Tem uma vida agitada, norteada pela emergência do jornalismo. Encontra nas idas à Lourinhã, de onde é natural a namorada, um refúgio, onde volta a encontrar o contacto com o mar. Estar «com os amigos e jantar fora ao fim-de-semana» é um dos seus planos perfeitos, mas não descarta «um dia em casa a ver séries, filmes e a cozinhar». A cozinha é um local de descompressão, sobretudo quando tem tempo para dar largas à imaginação. Diz-se muito «ligado à família e aos amigos», por isso o seu «núcleo familiar» e «a namorada e os amigos» são todos, «cada um à sua maneira», um pilar.

E se não fosse jornalista?
«A primeira coisa que me ocorre dizer é que se não fosse jornalista seria certamente mais infeliz. Não teria o privilégio de perguntar, ouvir, contar histórias e, sobretudo, de manter as pessoas informadas. O serviço público que presto diariamente na agência Lusa faz-me sentir privilegiado e orgulhoso da missão que tenho e que tanto me dá prazer. Por isso, esta é uma pergunta muito difícil e até ingrata para um apaixonado pelo jornalismo (risos). Não consigo imaginar-me a fazer outra coisa, mas se não fosse o jornalismo teria certamente de trabalhar em algo ligado à comunicação e à escrita».

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