David e Maria: Na claque Mancha Negra disseram que sim um ao outro
16 Abril 2020
Jéssica Moás de Sá

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Jéssica Moás de Sá

David Ribeiro e Maria João são um casal desde 14 de abril de 2016, cerca de um ano depois de se terem conhecido. Confessam-se opostos, levando a acreditar no ditado que diz que “os opostos se atraem”, mas há uma paixão comum que os une: a Académica e o futebol. Quem diria que seria precisamente a viver esta paixão, na claque Mancha Negra, que Maria diria “sim, aceito” a David? Assim foi e está casamento marcado para maio de 2022.

As turras viraram beijos

São ambos de Coimbra, David Ribeiro tem 27 anos e trabalha na área da saúde e Maria João tem 24, trabalha num supermercado, mas licenciou-se em Contabilidade e Gestão Pública. Conheceram-se antes de fazerem, ambos, parte da claque, precisamente no mundo do trabalho. «Entrámos no mesmo dia, os dois, para o mesmo local de trabalho e primeiro andámos às turras um com o outro», conta David Ribeiro, entre risos. Depois de um ano a dividirem a rotinas, recordam-se bem do dia em que tudo mudou: «Estávamos a trabalhar num domingo e mandaram a Maria João para a minha secção para trabalhar comigo e foi aí que nos começámos a entender, depois começámos a sair, a beber café aqui e ali», lembra David.

A David encanta-o «a maneira de ser e o feitio» de Maria João, já à sua noiva foi o facto de o namorado «não ter nada a ver» consigo que a conquistou, sobretudo o facto de ser tão comunicativo. «Lá no trabalho, o David dava-se muito bem com as pessoas mais velhas, tratava-as por “minha querida para aqui, minha querida para ali” e Maria achava graça a esta forma de se expressar.

Porque eles “são Briosa”

David Ribeiro desde que se lembra «de ser gente» que acompanha os jogos da Académica e que ia ao estádio apoiar a sua equipa, mas apenas há «dois ou três anos», já depois de namorar com Maria João, se juntou à claque, Mancha Negra. «Há muitos anos que eu ia com os meus primos para a claque mas depois com a faculdade e com o trabalho deixei de ir tanto. Entretanto eu e o David juntámo-nos e tínhamos esse interesse em comum. Ao fim de semana quando tínhamos folga íamos ver um jogo», conta Maria. A namorada acabou por lançar um repto a David: Porque não ir para a claque? Inicialmente mostrou-se um pouco reticente, até porque não se imaginava a «ver um jogo inteiro em pé», admite entre risos, mas assim que experimentou, «adorou», garante Maria João. Para Maria, os primos foram os grandes impulsionadores para a paixão que foi nascendo em relação ao futebol. Na claque «via pessoas alucinadas pela Académica, que se entregavam quer corresse bem, quer corresse mal [desportivamente]. Pessoas que estavam lá sempre. Via homens a chorar. O espírito que se vive lá torna-se em amizade e as pessoas juntam-se por boas causas», descreve. David está lá há menos tempo mas diz que a Mancha Negra «não é uma claque, mas sim uma família que está lá para bem e para o mal». Agora, admite, não seria a mesma coisa ver «um jogo da equipa pela televisão», porque no estádio «vibra-se» muito mais, a equipa e a claque, garante, «são um só».

Maria João, devido ao seu trabalho não tem a possibilidade de ver tantos jogos quanto desejaria, mas David este ano só faltou a um. «Este ano só não fui à Madeira, não consegui marcar viagem por causa do trabalho, mas tenho ido a todos os jogos, seja em casa, seja fora», conta. Os membros da claque têm direito a bilhetes mais baratos, todas essas questões são tratadas «pela parte gestora da claque», a quem são comprados diretamente os bilhetes. Também nos jogos fora, juntando o preço do bilhete e do transporte, há direito a descontos para os membros.

Conhecida como a claque dos estudantes, o casal explica que existem também pessoas de outras gerações: «Dentro da claque, temos dois departamentos, a Mancha Negra e a Velha Guarda. A maioria dos membros tem de facto entre 20 e 30 anos, mas também existem várias pessoas mais velhas». É assim que se imaginam no futuro, a continuar a seguir a sua Académica e passar este amor para os seus filhos, mantendo viva esta paixão de geração em geração.

E ao minuto 14, as faixas levantaram-se

Já há algum tempo que David Ribeiro vinha perguntando a Maria João se, um dia, era seu objetivo casar, mas a namorada não tinha essa ambição. «Por mais que eu tivesse esse sonho de casar, metia-o de lado facilmente porque sabia que era dispendioso. Com esse dinheiro podíamos viajar e fazer “ene” coisas. Por isso não era meu desejo nem pensava muito nisso. O David perguntava-me várias vezes se queria casar com ele e eu dizia sempre que não. Ele dizia que um dia me faria uma surpresa tão em grande que não podia dizer que não», explica Maria. David cumpriu a promessa.

A, agora, noiva, não fazia «ideia deste pedido» até porque o namorado estava «há pouco tempo» na claque. A ideia de David Ribeiro surgiu mesmo pelo facto de saber que Maria tinha algum receio em dar este passo devido ao investimento económico e por isso «queria fazer uma coisa em grande». Como tem «um grande amor à claque e ao clube» de que a namorada também partilha, David pensou em juntar tudo: «Porque não juntar os meus dois grandes amores, a Académica e a minha mulher?», perguntou-se.

O pedido exigiu alguma preparação, David teve de falar com todos os membros da claque, sem que Maria percebesse. Foram preparadas faixas que diziam “Queres casar comigo, Maria João?” com o intuito de as levantar no jogo. Tinha «pedido aos seguranças do estádio» para o deixarem entrar com um ramo de rosas e com o anel e ao minuto 10, saiu de junto de Maria e foi buscá-los. Ao minuto 14, número que diz respeito ao dia em que começaram a namorar, as faixas com o pedido levantaram-se e David foi ao encontro de Maria, tremendo «que nem varas verdes» e reforçou o pedido de casamento. Nesse entretanto, a namorada estava em cima do palanco, a pedido do líder da claque, para ver se as faixas estavam direitas. Não viu logo a mensagem que estava escrita e só quando foi alertada que aquilo era para ela, percebeu o que se passava. «Estava tão envergonhada, com tanta gente a olhar para mim. Mesmo que quisesse dizer que não, não podia», diz, entre risos, Maria.

O que é certo é que David cumpriu a promessa, com um pedido de casamento memorável. O casamento está marcado para maio de 2022 e o tempo entre o pedido e o casamento é justificado por Maria: «Nem eu nem o David vamos contar com a ajuda dos nossos pais, todas as despesas vão partir de nós e eu sempre disse ao David que se era para fazer, então era para ser em condições». O casal tem vindo a juntar dinheiro para ter o casamento com que sonham. No amor deles, mistura-se claramente o futebol, que está presente nas suas rotinas, esteve presente no pedido e vai estar presente no casamento. «O David quer que a entrada na quinta seja com tochas, o que usamos nas claques», explica Maria. Quanto a nós, depois, queremos ver fotos.

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