João Machado: A missão da Polícia de Intervenção
30 Abril 2020
Jéssica Moás de Sá

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Jéssica Moás de Sá

Muitas crianças sonham, um dia, vestir uma farda. Sair de casa com a missão de ajudar a tornar este mundo menos perigoso e de socorrer quem precisa. João Machado não tinha esse particular desejo, mas o mundo quis, por ele, que fosse esse o seu destino. É polícia de intervenção, atuando nas situações mais complicadas a nível de segurança. «Não é fácil», admite, mas há uma coisa que o move desde sempre: o desafio.

O lar onde tudo começa, a família

Cresceu praticamente sem a «figura de pai presente no seio familiar» ou melhor, encontrou-a noutro membro da família: «Vi no meu irmão o pai que nunca tive, o meu herói, e queria ser como ele», confidencia João Machado, de 28 anos, natural de Quinta do Conde, concelho de Sesimbra. Quando os pais se divorciaram chegou à casa «mais tranquilidade» e o divórcio não foi encarado como algo negativo, porque «não ter o típico e perfeito seio familiar», diz, tornou-o «mais forte para as situações mais difíceis que iria encontrar pelo caminho à medida que fosse crescendo».

A partir desse momento e «devido ao trabalho» da mãe, que trabalhava desde cedo até à noite, João Machado e os irmãos passavam muito tempo juntos e cuidavam uns dos outros. As reuniões familiares eram curtas ou quase nulas: «Não havia muitos momentos em que estivéssemos todos reunidos para comemorar alguma data importante ou algo do género, nem sequer tivemos a oportunidade de saber o que seriam férias em família», conta. Sendo o mais novo dos irmãos, além de ver o no irmão a figura paternal, também encontrou na irmã uma figura que admira: «A minha irmã, quem a conhece sabe que se preocupa mais com os outros do que com ela mesma, não havendo por vezes razões para tal, ela é mesmo assim. Foi enquanto a minha mãe trabalhava para sustentar sozinha a família, a sua substituta em casa, a minha segunda mãe». Esta «estrutura familiar» permitiu que João tivesse tido sempre «imensa liberdade». Com esta liberdade, diz, «veio muita responsabilidade» e se há coisa que acredita que o define, é mesmo isso: «Ser responsável por mim e por quem está comigo».

Palavras de ordem: liberdade e desafio

Já o tínhamos dito, João Machado não tinha uma profissão de sonho. «Houve um momento em que percebi que não queria seguir o normal caminho dos estudantes de acabar o 12.º ano, escolher uma área e tirar um curso», conta. Procurava algo que se pudesse encaixar no seu perfil, «libertador e desafiante». A Polícia começou a fazer parte das suas opções, mas como tinha o desejo de se «colocar à prova a nível mental e físico» decidiu que antes de entrar na Polícia, iria alistar-se nas forças armadas.

A 7 de maio de 2012 entrou na Escola Prática de Engenharia, em Tancos, e iniciou a recruta de três meses no Exército Português. A exigência experienciada neste período da sua vida trouxe-lhe alguns ensinamentos: «Aprendi que é nos piores momentos que conhecemos quem nos rodeia, que acima de tudo devemos ser humildes e honestos e que podemos ser felizes com pouco». Na sua memória perdura uma frase, «dita por um dos elementos de instrução» num dos momentos mais marcantes que viveu, “Ad Augusta per Angusta”, ou seja “A lugares elevados por veredas estreitas”.

E depois, a Polícia

Realizou o Curso de Formação de Agentes na Escola Prática de Polícia em Torres Novas. A entrada não é imediata, é necessário realizar «provas físicas, escritas, de carácter psicológico e uma entrevista final», explica. Esta etapa de seleção, por si só, requer esforço acrescido, para conseguir ocupar as vagas limitadas que existem. Essa prova estava ganha, seguir-se-iam nove meses de curso, que se divide em várias fases.

A primeira fase chama-se «formação por disciplinas» e é onde os futuros agentes têm contacto com várias áreas, umas teóricas, outras nem tanto, da profissão. Das disciplinas fazem parte, por exemplo «Direito Penal e Processual Penal, Tiro, Defesa Pessoal, Legislação Rodoviária, História da PSP, Psicossociologia», num total de 17 disciplinas. Segue-se a fase de Competências, uma fase «mais técnica», onde são avaliados os desempenhos em «tipos de serviços» que são o futuro dos que terminam, com sucesso, o curso. As seis Competências são avaliadas na chamada «semana de testes», uma das semanas mais complicadas: «É uma semana em que as horas de sono são muito reduzidas, o cansaço começa a acumular mas é o tudo por tudo». Por fim, chega a fase do estágio de um mês, que permitiu o regresso à sua residência e onde os futuros polícias não têm «autonomia para qualquer tipo de atuação» mas que, apesar disso, conta também para a avaliação. A 18 de março de 2016 terminou o curso que culminou com o Compromisso de Honra.

Sempre mais e mais

Estava de lua-de-mel, “casado de fresco” quando recebeu informação de que estava aberto o concurso para o Curso de Ordem Pública da Subunidade Corpo de Intervenção da Unidade Especial de Policia. O interesse, esse, começara muito antes. «Muito antes de entrar na Polícia, já tinha recolhido imensa informação do Corpo de Intervenção, e via esta subunidade, que é mítica na Polícia de Segurança Pública como uma casa a que apenas os melhores poderiam pertencer», explica, admitindo que o entusiasmo de poder, «em menos de dois anos anos de serviço operacional», fazer parte desta subunidade, foi imediato.

Todos já ouviram falar, de uma forma mais ou menos recorrente, da dificuldade das provas para certa funções militares e a Polícia de Intervenção é prova disso. «Desde o momento em que me candidatei passei por provas físicas», conta João Machado, que explica que os melhores são selecionados para «uma prova de seleção de três dias». Estes três dias «são bastante duros» em que os formandos «são colocados à prova em inúmeras ocasiões distintas»: «Foram três dias isolado sem qualquer contacto com o exterior em que esqueci o mundo lá fora e em que tive de acreditar na minha capacidade de superação e mais uma vez dar o melhor de mim». Depois desta prova superada, João Machado foi selecionado para ingressar no curso de ordem pública ministrado em Belas, na unidade Especial de Polícia.

Todo o curso é «bastante duro a nível físico, mas também a nível mental», muito mais do que «imaginava», admite. Muitos colegas «desistem» ou são eliminados, embora o polícia não possa dar «informação específica» devido ao sigilo exigido, reconhece que a intenção é mesmo «levar o corpo para fora da zona de conforto» até que a «vontade de ceder esteja no pensamento». «Terminei no dia 4 de Abril de 2018, com a minha mulher na plateia a ver-me receber uma boina que tanto me custou a ganhar e o melhor de tudo, com a nossa filha na sua barriga», conta, lamentando que, devido ao curso, tenha estado afastado da mulher num período da sua gravidez. No entanto, salienta, «a sorte» que tem em ter a seu lado uma mulher que sempre o «apoiou» em todas as decisões e que «desistir» nunca esteve nos planos de ambos.

Para fazer parte da Polícia de Intervenção, acima de tudo, João Machado acredita que é preciso ter «espírito de corpo e grupo»: «A nossa atuação nunca é efetuada de forma isolada, trabalhamos em equipa e de forma organizada». Já correu o país de «Norte a Sul» em diligências, mas foi nos jogos futebol onde mais atuou. O Corpo de Intervenção não lida «com o cidadão no seu dia-a-dia», está focado, sim, em «cenários de ordem pública generalizada», ou seja, atua «quando outros meios não sejam eficazes». João Machado exemplifica: «Somos muitas vezes necessários para atuações em zonas urbanas sensíveis, bem como operações de buscas domiciliárias que requerem uma força mais musculada na atuação».

Se tem medo? João Machado diz que ter medo «não pode ser visto como algo negativo». O medo faz com que se fique «ciente do risco» que se corre e isso permite que se tomem «melhores decisões». O medo vai sempre existir, é importante é que se saiba «gerir» de forma a que afete o menos possível. O que é necessário também gerir são as provocações constantes que se sentem em certos “teatros de operações”, em contextos, como em jogos de futebol, em que a polícia é vista «como o inimigo» ou em manifestações em que a polícia está «à frente das pessoas». O «foco» nunca se pode perder e a polícia sabe que qualquer ação em falso «pode desencadear uma reação na multidão» e a polícia está ali, frisa «para a controlar».


Valorização da Polícia

A resposta foi clara: «Não». João Machado não considera que a polícia em Portugal seja valorizada. «Vivemos dias em que as nossas atuações são constantemente colocadas à prova em tom de provocação. Um telemóvel está sempre à mão pronto para filmar o mínimo erro que um polícia cometa», salienta, dizendo ainda que por vezes a polícia nem está a cometer «qualquer erro», mas assim que esses vídeos são colocados nas redes sociais sofrem um forte escrutínio por pessoas «que desconhecem a legitimidade» do modo de atuar dos polícias. João Machado diz que é importante que a «polícia não perca a autoridade perante a sociedade».

O polícia acredita, face a todo este contexto, que não é uma profissão «para pessoas de fraco estofo», onde são experienciadas «situações» que «ficam na memória alguns dias». «Temos de saber levar para não sermos consumidos pelo stress que se vai acumulando com o passar do tempo» e por isso, acredita, é que é tão necessário «ter um seio familiar estável» que encontrou. «Nada é mais importante do que os familiares» e construir «uma família com a pessoa que amamos e ver crescer a nossa filha», frisa. Nada o satisfaz mais, confidencia, do que saber que depois de um dia «mau no trabalho» terá «todo o carinho ao chegar a casa».

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