Célia Figueiredo: Doença celíaca foi-lhe diagnosticada aos 3 anos
4 Junho 2020
Jéssica Moás de Sá

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Jéssica Moás de Sá

A alimentação é uma parte fundamental da nossa vida. Faz parte da nossa rotina diária e tem influência no nosso bem-estar físico e psicológico. Sabendo isto, há uma pergunta que pode inquietar algumas pessoas: como é viver, sabendo que as nossas escolhas alimentares estão limitadas? Célia Figueiredo partilha o seu testemunho, uma vez que convive, desde a sua infância, com o diagnóstico da doença celíaca.

Como gerir o diagnóstico

Célia Figueiredo, natural da Madeira, mas residente na freguesia de São Gregório, concelho de Caldas da Rainha, tinha apenas 3 anos quando descobriu que sofria desta doença, mas a tenra idade não é razão para que não se lembre como esta a afetou nos primeiros anos da sua vida. «Apesar de ser muito pequenina, lembro-me muito bem de alguns episódios maus dessa altura», garante. Tanto para Célia como para a sua família, a descoberta «foi muito complicada»: «Na altura ninguém conhecia este problema. Não havia alimentação sem glúten à venda em lado nenhum, tínhamos de fazer a encomenda de alguns alimentos como pão, massas, algumas bolachas, etc, de uma fábrica em Espanha. Essa encomenda vinha num caixote enorme que tinha de dar para o mês inteiro», conta. Hoje em dia esta parte está mais facilitada, «em qualquer supermercado existem estes produtos», embora, frise, «os preços continuem um absurdo».

O glúten é o elemento proibido para os celíacos, porque a sua ingestão destrói «o intestino delgado», o que acarreta depois outros problemas. Mas quais são os alimentos que contêm glúten? Célia Figueiredo dá alguns exemplos: «Cevada, centeio e malte. Ou seja, não posso beber cerveja (pela cevada), pão, massas, bolos, alguns fiambres, alguns queijos, iogurtes. Basicamente todos os alimentos processados são sempre suspeitos de terem glúten», explica. Não sendo já um diagnóstico fácil, Célia Figueiredo sofre também de asma e osteopenia (perda gradual da massa óssea que pode levar à osteoporose, doença que compromete os ossos, aumentando o risco de fraturas), piorando ainda mais a sua qualidade de vida.

Célia Figueiredo explica ainda que, quando um celíaco consome algum alimento com glúten, pode não ter «sintomas logo no imediato», dependendo «de pessoa para pessoa», mas quando sente, os sintomas são, geralmente, «cólicas muito fortes na barriga, diarreia, vómitos, febre», podendo depois evoluir para patologias mais graves. A madeirense diz que nunca teve «momentos de fraqueza» que a levassem a comer por impulso qualquer alimento, sobretudo porque à memória vinham as consequências «muito más» que já tinha sofrido na pele. Célia tem a certeza, no entanto, que já comeu «alguma coisa com glúten sem saber»: «Milhares de vezes… até há pouco tempo comia frango assado, ou mesmo febras, que aparentemente é inofensivo mas que descobri que praticamente toda a gente tempera com cerveja».

A parte social é a grande dificuldade

«Todos os momentos em que tenho de comer fora da minha casa são complicados para mim», afirma Célia Figueiredo. «Primeiro, muita gente, arrisco-me até a dizer que toda a gente que não tenha a doença celíaca, não faz ideia do que tem ou não tem glúten. Segundo, porque detesto ser uma preocupação para as pessoas e terceiro, porque não gosto de ter de explicar a toda a gente o que me pode acontecer se comer, se já alguma vez aconteceu, etc…», desabafa Célia Figueiredo. Prestes a fazer 30 anos, confessa que, apesar de compreender a curiosidade das pessoas, como este tipo de diálogos fizeram parte «de toda a vida», acaba por ser desgastante. Viver toda a vida com este diagnóstico fez também com que se tornasse um pouco «desconfiada» e por mais que lhe garantam que um «produto não tem glúten», Célia Figueiredo tem de ver com os seus próprios olhos os «ingredientes nas embalagens».

Por todos os problemas que tem, tornou-se também muito rigorosa no tipo de alimentação: «Sou muito cautelosa com os meus alimentos. Consumo muitas verduras, fruta, não bebo sumos e é muito raro beber álcool. Muito raramente como doces, só em ocasiões especiais. Como muita batata doce e arroz. Portanto, é uma “dieta” muito à base de produtos naturais», explica.

Um ponto sem retorno

Uma das situações mais complicadas que viveu foi motivada por uma má avaliação médica. Célia Figueiredo foi seguida até aos 19 anos, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e o médico que a seguia, quando era ainda pequena, foi de baixa para ser operado, tendo sido substituído por um colega. «Por algum motivo que nunca vou saber, esse médico disse aos meus pais e a outros doentes também que eu estava curada e que podia ir para casa e comer à vontade. Nós ficámos todos contentes, porque havia essa hipótese de ficar curada, e a primeira coisa que fiz quando cheguei a casa foi comer uma vianinha, um famoso “papo-seco”», conta. O que é certo é que os dias seguintes foram «horríveis», não apenas pelo pão, mas por todas as outras coisas que voltou a incluir na sua dieta alimentar. Quando o seu médico voltou e estranhou «nunca mais ter voltado às consultas», entrou em contacto com os pais de Célia e quando percebeu o que se passava pediu que, logo no dia seguinte, fossem ao hospital, garantido que a informação de que estava curada era falsa.

«Fiz uma série de exames e uma endoscopia. O resultado desses exames foi que o glúten que comi foi o suficiente para fazer uma ferida no intestino delgado. Claro que a pequena hipótese de ficar curada foi “por água abaixo”», relata. Com este episódio aprendeu que é sempre necessário «procurar uma segunda opinião»: «Os médicos não são deuses, são pessoas como nós que também erram». Ainda assim, Célia Figueiredo reconhece a sorte que teve com o médico que a seguiu desde o começo do processo e diz que é graças a ele que hoje aqui está. «Foi ele que descobriu o meu problema, na minha zona ninguém sabia qual era o meu problema e até chegaram a dizer aos meus pais para não terem muita esperança em mim, que não ia sobreviver», recorda. «Felizmente tudo passou», ressalva, lembrando que terá sempre de avaliar bem o que come, porque o «remédio é a “dieta”».

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