Fábio Fernandes: Mais do que o trabalho com idosos, a preocupação com uma faixa etária
11 Junho 2020
Catarina Correia Martins

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Catarina Correia Martins

Fábio Fernandes trabalha com idosos e adora aquilo que faz. Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde e com especialização em Psicoterapia Sistémica e Familiar, foi junto desta faixa etária que encontrou a sua realização profissional. Apesar de estar no início da sua carreira, garante que, no que depender de si, trabalhará «sempre com eles».

Trocar as voltas ao sonho

Fábio Fernandes, de 26 anos, é natural de Barcouço, uma aldeia no concelho da Mealhada, distrito de Aveiro. Desde pequeno que, para si, era muito clara a formação que queria fazer de futuro: Direito. Em 2012, depois de um percurso escolar de sucesso, Fábio conseguiu entrar no curso com que sempre sonhara. No entanto «poucos meses depois de ter entrado para o curso», percebeu «logo que não era aquilo que queria». «Sempre julguei que aquele curso era uma paixão minha, mas essa paixão só existiu até ao momento em que lá cheguei», lembra. Não quis desistir à primeira contrariedade e por isso optou por se manter naquela área: «Pensei que podia ser da fase inicial e deixei-me estar mais um tempo. Uma pessoa sai do Secundário e vai para a faculdade, a rotina é outra, podia ser disso», recorda. Porém, ao fim de dois anos, o esforço para gostar das disciplinas e do curso em si começou a ser demasiado pesado e Fábio diz ter percebido, definitivamente, que «aquilo» não era para si.

Psicologia era uma área de que também gostava, tinha inclusive pensado nela como opção quando estava ainda no Secundário, todavia, nessa época, «Direito falava mais alto». Quando se viu num curso de que não gostava, decidiu: «Vou tentar Psicologia e ver o que acontece». E, quando fala dessa escolha, é perentório ao dizer que foi a sua «salvação»: É mesmo isto que eu gosto de fazer e o meu trabalho “é a minha cara”. Foi precisa essa mudança de curso para eu ver que Psicologia era o que eu queria fazer. Se tivesse continuado em Direito, era um erro que cometeria porque não tinha nada a ver comigo», reitera.

Por ter entrado no novo curso nestas circunstâncias, assume que «não sabia bem o que queria fazer no futuro», sabia apenas que gostava muito de idosos, mas também de crianças, por isso o “depois do curso” era uma incógnita. Os anos de mestrado foram, no entanto, «decisivos»: «Percebi que quando acabasse, trabalhar com idosos era o que queria fazer, era esse o meu objetivo», conta. Dois episódios pessoais pesaram também nesta decisão. «Há cerca de 10 anos, o meu avô teve um AVC que lhe imobilizou a parte direita do corpo, praticamente perdeu a fala – diz uma palavra ou outra de vez em quando –, era uma pessoa muito independente e, desde aí, perdeu a autonomia e foram precisos outros cuidados. Logo nessa altura, comecei a ligar-me muito ao trabalho com idosos. Depois, em 2015 [na altura em que se mudou para Psicologia], a minha avó faleceu, vítima de cancro. Foi um momento crucial, éramos muito ligados, foi ela que me criou durante muitos anos e a morte dela marcou-me de uma forma que me fez pensar que o que eu queria era trabalhar com idosos. Esses dois acontecimentos foram o que despoletou este meu gosto por trabalhar com eles», lembra. Hoje afirma que o que se vê «a fazer daqui a 10 ou 15 anos, é trabalho com idosos». Não excluindo a hipótese de agarrar outras oportunidades que surjam, diz que sabe que é algo que vai «gostar sempre de fazer» e que «se puder» vai «trabalhar sempre com eles, isso é certo».

O trabalho, na prática

Ainda durante o mestrado, Fábio Fernandes teve a oportunidade de fazer o seu estágio curricular na Unidade de Saúde de Coimbra, «um trabalho com idosos», e findo o curso encontra-se a frequentar o estágio profissional na Associação Recreativa Cultural e Social de Cioga do Monte, que tem uma Estrutura Residencial para Idosos, onde Fábio desempenha as suas funções. O psicólogo explica que aquilo que faz «baseia-se principalmente em psicoterapia». Fá-lo «com os utentes que têm necessidade disso e com aqueles que é possível fazê-lo, porque muitas vezes existem pessoas que têm necessidade só que, por limitações na fala ou na audição, torna-se impossível fazer». Do seu trabalho constam «dinâmicas grupais»: Desde «debates de temas, junto um grupinho razoável de pessoas com que eu sei que é possível discutir determinado tema; até coisas mais práticas, atividades que envolvam o manuseamento de lápis, trabalhar com as mãos», explica.

Mas será que os idosos percebem o trabalho que Fábio faz? Depende. «Nos indivíduos mais “orientados”, tenho três ou quatro utentes da instituição com quem faço psicoterapia, esses entendem perfeitamente qual o objetivo das conversas e dos encontros», considera. Os restantes, que apesar de não fazerem sessões de psicoterapia, acabam por participar nas atividades de grupo, «muitas vezes não têm a perceção» se Fábio é «psicólogo, enfermeiro ou outra coisa qualquer». Mesmo sem saberem qual a sua profissão, na opinião do jovem, «de uma forma geral, entendem» qual o seu papel.

O acompanhamento da população idosa

«Considero que um psicólogo é importante em qualquer instituição, seja no trabalho com crianças, adolescentes ou idosos», esta é a opinião de Fábio, com base na sua ainda curta experiência, mas também na auscultação da experiência de alguns colegas, que acham «imprescindível» a presença destes profissionais. No seu caso concreto, com os idosos, Fábio aponta que «surge sempre alguma coisa»: «Há um utente que perdeu o filho, que faleceu há 20 ou 30 anos, e tem alturas em que se lembra mais, fica emocionado e começa a chorar», exemplifica, afirmando que já testemunhou alguns casos desses nas duas unidades em que trabalhou. «Nesses momentos, é preciso estar ali alguém com eles, alguém que saiba que perguntas deve fazer e que respostas deve dar», um trabalho que cabe ao psicólogo.

Fábio Fernandes ressalva que «o acompanhamento, em qualquer faixa etária, será certamente essencial», porém afirma que «no caso dos idosos, tem que haver uma preocupação ainda maior e que nem sempre existe», mesmo nos que não estão institucionalizados. Esta «população é, muitas vezes, esquecida. Estamos a falar de uma população muitas vezes isolada, porque a partir do momento em que os filhos saem de casa – o que em Psicologia se chama “ninho vazio” –, ficam sozinhos, vão envelhecendo e, à medida que os anos passam, ficam ainda mais sozinhos. Depois há o falecimento de um dos cônjuges, ficando um dos elementos ainda mais sozinho…», explica, justificando a sua opinião de que «há muito isolamento nesta faixa etária». Por isso, por vezes, «o que é preciso é uma simples conversa. Estas pessoas apenas pretendem desabafar, conversar com alguém» e, para isso, «precisam de alguém que as escute, não apenas que as ouça, mas que as escute, que ouça as preocupações, as memórias, porque faz-lhes falta conversar». Aqui, o interlocutor preferencial devia ser, para Fábio, o psicólogo, um «indivíduo com experiência profissional suficiente para lhes dar a segurança de que “eu estou aqui, estarei aqui quando for preciso, quando quiser desabafar ou simplesmente conversar”», sublinha. Em suma, o que defende é que, «sem dúvida, tem que haver um acompanhamento, uma maior preocupação com esta população que, na maior parte das vezes, se encontra esquecida», afirma.

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