André Vilar: Mais do que apontar o problema, fazer parte da solução
20 Agosto 2020
Catarina Correia Martins

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Catarina Correia Martins

André Vilar, de 23 anos, é vice-presidente e um dos fundadores da associação recém-criada 4540 Jovem, no concelho de Arouca. O amor à terra e o espírito cívico levaram-no a juntar-se a outros jovens para, juntos, criarem soluções para os problemas que encontravam na sua terra.

Do pensamento à ação

André Vilar é licenciado em Gestão do Património e trabalha, atualmente, no Arouca Geopark e ainda que esse tema nos desse também “pano para mangas”, não foi isso que nos levou a querer conhecê-lo. Foi antes o facto de, como jovem, ter decidido ser parte do melhoramento do concelho que o viu nascer. Aos três mentores da ideia, André Vilar, Cátia Cardoso (cuja história já conhecemos, aqui) e João Fernandes, que se conheciam «vagamente» antes desta aventura em conjunto, unia-os a necessidade que sentiam de que, «em Arouca, faltava espaço de debate, de cultura direcionada aos jovens»: «Temos montes de mostras culturais, espetáculos, mas são todos muito focados na própria ruralidade de Arouca. E sentimos que faltavam espetáculos, faltava cultura direcionada ou pensada para os jovens», explica.

Juntamente com o amor que têm à sua terra, este foi o motor para tudo o que aconteceu depois. «Achávamos que poderíamos ou deveríamos criar um manifesto cultural jovem – era assim que lhe chamávamos inicialmente –, onde pudéssemos expor aos órgãos de poder local, quais as necessidades que sentíamos», lembra. No entanto, a resiliência, comum aos três, levou-os a pensar que, «em vez de apresentar apenas o que estava mal», queriam «fazer parte da solução». Esta postura foi impulsionada por um quarto elemento, Cátia Camisão, vice-presidente da Federação Nacional das Associações Juvenis, que acabou por se juntar ao grupo: «Ela incentivou-nos a criar uma associação e a apresentarmos diretamente soluções que fossem ao encontro daquilo que nós queríamos que fosse uma Arouca culturalmente virada para os jovens, sendo que à cultura, associámos também a parte ambiental», conta.

Foi então em setembro último que a ideia começou a ganhar forma nas suas cabeças. O primeiro passo foi “recrutar” outros jovens que se identificassem com este ideal e que quisessem ajudar. «Ao final de um mês já éramos 10 e na data de apresentação da associação, em fevereiro, éramos 22, metade rapazes, metade raparigas, entre os 14 e os 33 anos», revela. A equipa tem a «grande vantagem» de ser «multidisciplinar», integrando «professores, engenheiros, pessoal da comunicação, gestão de património, do turismo, do direito, da gestão…», considera.

A formalização

Apesar de ter sido apresentada no final de fevereiro, André Vilar dá conta de que apenas há cerca de dois meses foi terminado o processo de criação legal da associação. «Foi mais complicado do que aquilo que estávamos à espera», adianta. Em termos burocráticos «há muito trabalho a fazer, desde registos, trabalho no notário, as finanças, a segurança social… Todo o processo é bastante burocrático», frisa. A acrescentar a isso, fizeram-no «nesta fase estranha da pandemia» em que muitas das repartições públicas estiveram fechadas e com o trabalho condicionado.

O trabalho, esse, é a dividir por todos. «Somos todos sócios e estamos todos ao mesmo nível, temos órgãos sociais porque nos obrigam. Somos uma associação quase informal em que todos decidem, damos voz a todos e consideramos que é assim que tem que ser», afirma. No seguimento disso mesmo e pelo facto de se tratar de uma «associação sem fins lucrativos», escolheram não contratar ninguém para fazer a parte burocrática, mas sim «dividir o trabalho por todos os membros».

A escolha do nome, ou melhor a forma como se diz o nome da associação, foi a «primeira decisão tomada democraticamente». Depois de escolherem o código postal do concelho para representar a palavra Arouca, e de decidirem associar-lhe a palavra Jovem representando o foco da associação – formando o nome 4540 Jovem –, restava chegar a um consenso acerca da forma como se diria oralmente. «É quatro mil quinhentos e quarenta? É quarenta e cinco, quarenta? Ou é quatro, cinco, quatro zero? E, por maioria, escolheu-se a última opção e ficou assim registado nos estatutos, por extenso, que é para não haver erros», esclarece o vice-presidente.

Na prática

A atividade da associação iniciou logo no dia a seguir à sua apresentação, a 23 de fevereiro a 4540 Jovem ia para o terreno, numa parceria com a Associação Geoparque Arouca, «que tinha uma ação na zona dos Passadiços do Paiva, para controlo de uma espécie invasora, as mimosas». Menos de um mês depois era decretado Estado de Emergência no país e os membros da associação, «cheios de vontade de trabalhar», tiveram de se “agarrar” ao digital, que acabou por ser «a única solução, mas o objetivo é sempre trabalhar no terreno».

Agendadas estavam algumas atividades que tiveram de ser adiadas ou repensadas: um concurso de poesia com as escolas e uma ação intergeracional, com avós e netos, para assinalar o 25 de Abril. A data da Revolução dos Cravos foi assinalada, mas de forma diferente: «Cada um, em sua casa, gravou uma parte do poema As Portas que Abril Abriu de Ary dos Santos e publicámos nas redes sociais», conta. Também no feriado municipal, a 2 de maio, realizaram uma ação com um quizz histórico no Instagram, com perguntas sobre a padroeira, Santa Mafalda. Já em fase de desconfinamento, assinalaram o 10 de junho com um filme sobre o que pensaria Camões acerca dos dias de hoje. «Associámo-nos também ao movimento Unidos pelo Presente e Futuro da Cultura em Portugal, onde fomos para a Praça Brandão de Vasconcelos, normalmente local de cultura em Arouca, de olhos vendados e cada um tinha uma palavra fazendo o nome do movimento», revelou André Vilar.

Atualmente, estão a fazer «trabalho de reconhecimento em algumas freguesias» para que consigam ter, na associação, um elemento representante de cada uma delas. «Ainda não temos porque há freguesias mais serranas, mais despovoadas, em que não há tantos jovens ou onde é mais difícil chegar aos poucos que há porque, normalmente, também não se sentem tão integrados no núcleo mais urbano», revela, acrescentando que das 16 freguesias do concelho, apenas três ou quatro não têm ainda nenhum jovem na associação.

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