Lia Faria: Dar a volta à vida em tempo de pandemia
19 Novembro 2020
Catarina Correia Martins

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Catarina Correia Martins

Lia Faria é nutricionista e desde março que trabalha exclusivamente no online. Aproveitou a pandemia e o confinamento para virar a sua vida e tomar-lhes as rédeas e hoje, não só não está arrependida, como considera estar no caminho certo para atingir os seus objetivos profissionais.

Lia Faria afirma que «sempre» gostou da área da saúde e que, quando pensava no seu futuro, era aí que se via profissionalmente. No entanto, quando chegou o momento de escolher, diz ter-se sentido «insegura daquilo que queria». «Na altura da entrada na faculdade, entrei para Enfermagem, mas desisti do curso porque não me enquadrava, não me via a fazer aquilo a vida toda», explica. A escolha seguinte foi, de alguma forma, intuitiva: «A alimentação e a nutrição sempre foram um gosto que tive. Pensei “por que não?”. Além disso, sempre gostei muito, também, da área da beleza, e esta era uma das formas de conseguir conjugar a saúde com a beleza», explica.

Nutricionista desde 2015 e a trabalhar, sobretudo, «na parte do emagrecimento», considera que o seu trabalho «é um desafio constante, mas é uma profissão muito gratificante, também». Desde que concluiu o seu estágio na Ordem, que a atestou de facto como nutricionista, já trabalhou em três locais diferentes, todos eles farmácias. No entanto, em março deste ano, decidiu trocar as voltas àquilo que até então era a sua realidade.

Online por sua conta e risco

Março foi, de facto, um mês de mudança para toda a gente. Com a chegada da pandemia de COVID-19 ao país, os nossos hábitos mudaram e aquilo que considerávamos a normalidade, deixou de o ser. Todavia, para Lia Faria, a mudança foi uma opção. «Já fazia acompanhamento online desde o final do ano passado, como part-time, aos fins de semana e nos dias livres», enquanto mantinha o seu emprego presencial. Entretanto a adesão foi tão boa, sobretudo na altura em que arrancou a quarentena, que decidiu arriscar e lançar-se num projeto pessoal online a tempo inteiro. «Claro que tive medo», afirma. Porém, vê a chegada da pandemia como «um virar de rotina de trabalho, uma mudança positiva», refere, salvaguardando todo o mal que a situação trouxe às pessoas. Diz que «em vez de deprimir ou desesperar», decidiu «da tristeza ou do desânimo, fazer algo para melhorar, é assim que deve ser», considera.

A nutricionista de Santo Tirso afirma que, hoje, «se estivesse a trabalhar presencialmente, teria algum receio de dar consultas, além de que a consulta ficava muito limitada pela falta de proximidade com o utente». Assim, no online, diz sentir as pessoas «bastante recetivas» e frisa que esta é «uma alternativa muito mais prática, porque a pessoa está à distância de um clique». «Basta uma mensagem, que eu estou disponível», atira.

Também para si vê grandes vantagens e afirma mesmo que ganhou qualidade de vida. «No início da carreira, trabalhava das 8 às 21 horas, todos os dias. Era muito, muito exaustivo. Agora tenho qualidade de vida, consigo gerir os meus horários, faço aquilo de que gosto, e gosto muito desta vertente online porque consigo chegar a muitas pessoas diferentes, mesmo fora do país. Tenho clientes de Inglaterra, França ou Luxemburgo», exemplifica.

Lia Faria considera, no entanto, que quer pelo cariz do seu trabalho, quer pelo meio que usa, por vezes «é complicado desligar». «Eu defino horários, mas claro que às vezes facilito», confessa. Para se regrar, definiu estratégias: «Não tenho as notificações ativas, não faz sentido ter, porque se estou a fazer um plano alimentar ou outra coisa que é importante, desconcentro-me e não faz sentido. Tento estabelecer horas para responder e estar mais ativa. Mas se a pessoa enviar mensagens todos os dias, eu respondo todos os dias», explica.

O facto de trabalhar online contribui, em muito, para estar constantemente na pele da nutricionista e não apenas na de jovem de 30 anos que é. Como trabalha muito a partir do Instagram, uma rede social alimentada pela fotografia, por exemplo, ao jantar, não resiste em publicar a refeição que está a fazer. «É algo que eu ainda estou a tentar gerir», afirma.

A sua página de Instagram é, aliás, uma das principais portas de entrada de clientes. «Até novembro de 2019, era uma página pública, mas pessoal. A partir daí, tomei a decisão de torná-la profissional. Não tinha conteúdo de nutrição, então comecei a fazer receitas, a criar posts informativos e, naturalmente, as pessoas começaram a seguir», recorda. E a diferença comprova-se nos números: em novembro último, há cerca de um ano, tinha à volta de 1700 seguidores, «na sua maioria amigos e pessoas conhecidas», hoje conta quase 25 mil seguidores, o que considera «muito bom».

O público compreende?

Mas será que hoje as pessoas estão já cientes do que é, de facto, uma nutricionista e de quem deve consultá-la? Lia Faria considera que sim. «As pessoas já não nos procuram apenas pelo emagrecimento», embora esse continue a ser o principal fator. «Vêm também para tratamento de algumas patologias, como o colesterol alto, hipertensão ou síndrome do cólon irritável, procuram para aumento de peso, nutrição desportiva… Muitas pessoas apenas querem uma reeducação alimentar», afirma.

Na sua ótica, os serviços de nutrição são «aconselhados para qualquer pessoa, mesmo que tenha um estilo de vida saudável». De acordo com Lia Faria, «há sempre pormenores que um nutricionista sabe e que a pessoa comum não tem noção de que podem ser corrigidos», salienta.

Determinação e trabalho são a “chave”

Diz que se daqui a cinco anos estiver a fazer exatamente o que faz hoje, sentir-se-á muito feliz, porque «é mesmo isto que quer seguir». «Transmitir a mensagem do estilo de vida e da alimentação saudáveis e atingir cada vez mais pessoas» são os seus objetivos.

Para quem tem uma paixão que gostaria de transformar no seu dia-a-dia, no seu emprego, Lia Faria deixa o conselho: «Se realmente gosta de algo, se têm uma paixão por um trabalho específico, deve seguir o coração, aproveitar todas as horas livres para se dedicar a isso», sublinha. «No início, como trabalhava no presencial e fazia acompanhamento online em part-time, ficava com o meu dia super ocupado, mas a curto-médio prazo funcionou bem e, felizmente, o trabalho está a crescer», recorda. «Só é possível com trabalho árduo, com muita dedicação e, depois, acreditar em vocês próprios, porque quando acreditamos, só tem que correr bem. Eu acredito que é assim», conclui.

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