João Paulo Antunes: Do campo para mundo das renováveis
3 Dezembro 2020
Rui Fernandes

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Rui Fernandes

João Paulo Antunes, 26 anos, é a personificação do velho ditado que diz que “mais vale tarde do que nunca”. Aos 18 anos mudou a mentalidade e decidiu que um dos objetivos de vida seria moldar a sua mente aos desafios do mundo atual. Saiu do Interior e viajou por várias cidades de Portugal na busca de um sonho. Atualmente, vive em Aveiro onde trabalha numa empresa de energias renováveis numa sociedade cada vez mais capitalista.

A infância

Nascido a meio da década de 90, num Interior ainda com pensamentos de antes do 25 de Abril, a sua infância foi igual à de muitos outros miúdos da sua idade. A escola era secundária e a ajuda nos afazeres domésticos era prioridade. Por muitas outras tarefas, a vida era passada «nas terras e entre ferramentas na oficina improvisada do meu pai que desde cedo ficou numa cadeira de rodas devido a um acidente de mota», conta e prossegue: «Eu e os meus irmãos crescemos num ambiente difícil, embora nunca nos faltasse comida na mesa, mas trabalhávamos muito e aprendemos a dar valor às coisas pela força do trabalho».

O seu primeiro projeto aconteceu quando tinha 10 anos, construiu um “mini carro”: Na verdade, era um «kart com um motor de uma motorizada velha que, sorrateiramente, retirámos de um ferro velho perto da nossa casa. Éramos uns jovens rebeldes, ainda que mais tarde o meu pai tenha descoberto e tivéssemos de devolver, não só o motor mas, também, toda a estrutura do kart. Sorte a nossa que o sucateiro ficou admirado com o nosso trabalho e não o quis de volta. Foi o meu primeiro grande protótipo. Andava que se fartava e construímos tudo sozinhos, eu e o meu irmão do meio».

Nunca gostou da escola e preferia os «trabalhos manuais». Contudo, hoje, admite que procura «saber sempre mais, principalmente na área do ambiente e em como podemos ajudar a mudar o planeta e, sobretudo, a mentalidade das pessoas, que é muito pessimista», refere. «Os meus pais tinham uma mentalidade muito fechada e era complicado para nós rompermos com aquilo em que sempre acreditaram. Pessoas muito religiosas e que acreditavam que era no trabalho que teriam uma salvação. Felizmente para nós que, com o tempo, as coisas foram mudando e tudo é diferente nos dias de hoje. Se há algo que adoro é a tecnologia que nos trouxe a capacidade de nos abrir ao mundo atual e mudou muito a mentalidade das pessoas», afirma.

“Fazer-nos ao caminho”

Aos 16 anos decidiu romper com o tradicional e aventurar-se por Portugal na procura de uma melhor qualidade de vida: «Viajei de norte a sul e participei em muitas conferências de autoconfiança. Era um miúdo com um défice enorme de confiança e, felizmente, hoje sou o oposto. Sem a confiança não consegues avançar nem ter uma vida feliz. Sou sortudo por todas as experiências que vivi e por todas as pessoas que conheci. Tudo contribuiu para aquilo que sou hoje».

«Eu e o meu irmão do meio sempre fomos muitos unidos e decidimos que só teríamos uma vida melhor se saíssemos de casa dos nossos pais e procurássemos a nosso próprio sucesso. Tivemos de nos fazer ao caminho, como se costuma dizer. E resultou». Com a sobriedade que lhe é característica em todas as decisões que toma admite, contudo, que «nem tudo foi fácil» e explica porquê: «Trabalhei em muita coisa antes de chegar a este projeto, que ainda não posso divulgar ao certo o que é, nem o nome, visto que estamos a tratar das papeladas, a típica burocracia à portuguesa. Fui trolha, eletricista, vendedor de produto automóvel e de telecomunicações… Mas tudo serviu para me enriquecer como pessoa e profissional. Vivi algum tempo em casa de amigos e conhecidos, mas estava decidido que, acontecesse o que acontecesse, não iria voltar para casa dos meus pais», conta.

A mudança com vista a um planeta verde

Forte admirador de tecnologia acredita que os combustíveis fósseis «têm os dias contados» e que muitas multinacionais e grandes «senhores do dinheiro» irão perder poder para outros que começam a apostar no futuro. É essa a ideia da start-up que João Paulo e mais três amigos começaram por criar. «Infelizmente ainda não posso falar sobre isto. Sabemos como é o mundo de hoje, cheio de ganância e aproveitamento de ideias que retiram dos outros e as colocam em si. Temos vários exemplos disso ao longo da nossa história, vejam por exemplo, o caso da Microsoft onde existiu um aproveitamento claro de alguém para seu benefício, mas foi uma das grandes responsáveis pela mudança da tecnologia como a vemos hoje. Não que nos queiramos comparar, é apenas um exemplo».

«Queremos entrar nas pequenas, médias e grandes empresas e mudar tudo o que seja possível para, primeiro, reduzir os custos da entidade patronal e, assim, os funcionários serem compensados por essa redução de encargos e, por outro lado, serem multinacionais verdes. Uma das nossas fortes apostas é na implementação dos LED em tudo o que seja possível. Embora seja já muito falado muito poucos são aqueles que o usam».

Admite ser um forte apoiante das medidas de prevenção para as alterações climáticas e afirma que «embora tenha um carro a gasolina, o objetivo é trocar para um elétrico ou híbrido». «A minha casa funciona só com LED e há um sistema de aproveitamento de água. Se todas as pessoas começarem a fazer isto, que são pequenos passos, o nosso planeta irá sobreviver. De outra forma, as máscaras que hoje usamos para o coronavírus serão usadas para não respirar todo o ar tóxico da poluição que fazemos. Vejam os países do Médio Oriente, por exemplo, como a Índia e a China», exemplifica.

Termina dizendo, que graças aos motores que construiu em pequeno, foi capaz de perceber que a sociedade funciona da mesma maneira: «Precisamos de algo que nos alimente para andar e normalmente utilizamos aquilo que mais há, contudo, se adaptarmos os hábitos, conseguimos não só ser mais saudáveis, como assegurar as gerações futuras sem problemas».

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