Maria Helena da Bernarda: A paixão de contar histórias
11 Fevereiro 2021
Catarina Correia Martins

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Catarina Correia Martins

Maria Helena da Bernarda é autora do projeto Nós nos Outros que, numa página de Facebook, conta histórias de pessoas, em discurso direto. Aliando a paixão pela fotografia ao amor à escrita, Maria Helena deu corpo a esta ideia em 2018 e desde então já conta com cerca de oito centenas de histórias e diz-se capaz de recordar cada uma delas.

«Boa tarde, o meu nome é Maria Helena da Bernarda e tenho uma página no Facebook, que se chama Nós nos Outros, onde relato diariamente histórias ou episódios da vida real e gostaria de saber se poderia dedicar-me cinco ou 10 minutos, a conversar um bocadinho comigo, e se aceitaria que eu contasse, nessa página, um episódio ou um bocadinho da sua vida» – é esta a abordagem «natural e educada» que Maria Helena usa sempre que pretende convidar alguém para fazer parte deste seu projeto. «Normalmente, é comum as pessoas responderem-me que não têm nada de interessante para contar e essas são as pessoas mais interessantes. O maior encanto está naquelas pessoas que acham que têm uma vida banal, que não se sentem especiais e, de repente, acabamos a conversa e elas não querem deixar de conversar, porque se sentem mais valorizadas», revela.

Das quase 800 histórias que já ouviu na rua, Maria Helena da Bernarda garante que nunca desperdiçou «uma única história»: «Não houve uma única pessoa que me contasse alguma coisa e que eu dissesse “isto não vou publicar”, não houve ninguém desinteressante, não há ninguém desinteressante», afirma. Neste projeto, feito de pessoas e para pessoas, considera que é apenas o «interface» entre quem da voz às suas próprias histórias e quem as lê. «É comovente ver os comentários que estão ali escritos e não me debater com comentários negativos, o que é um oásis no Facebook», começa por adiantar, acrescentando que a sua página «é um espaço de bem-dizer». «Consegui, neste meu cantinho, pondo aquela pessoa a falar e a outra a escutar, cumprir o objetivo, que é a compreensão do próximo e o respeito pelo outro», afirma, dizendo-se mesmo «muito contente com aquilo em que a página se tem vindo a tornar».

A origem

Mas que caminho foi percorrido até que, a 22 de novembro de 2018, nascesse este Nós nos Outros? Maria Helena da Bernarda é natural de Alcobaça, onde viveu «sensivelmente metade» da sua vida, passando a restante em Lisboa, onde vive há já vários anos. Licenciada em Economia e depois de passar mais de três décadas ligada à Gestão, na área da indústria de cerâmica, decidiu largar tudo e ser dona do seu tempo. «Estava muito assoberbada de trabalho, já nos 50 anos e percebi que a minha vida não podia continuar muito mais tempo àquele ritmo. Acabei por ponderar muito bem os pratos da balança e o que queria para o resto da minha vida», conta.

Foi então que numa viragem do ano fez a opção: «Decidi ser eu a mandar no meu tempo». Começou a fazer coisas de que gostava e que, até então, não tinha tido tempo ou oportunidade de fazer: «Liguei-me a uma associação como voluntária, a que estive ligada de forma relativamente curta, mas muito intensa. Comecei a dar-me o privilégio de me dedicar às minhas paixões, uma delas é o piano, contratei um professor e comecei a ter aulas…», revela. «Outra das paixões começou a ser a fotografia, fui fazer um curso e fiquei apaixonada. E outra coisa que também gostava muito era de escrever. Tanto que, quando passei a ter tempo livre, comecei a escrever diariamente na minha página pessoal de Facebook, sobre quase tudo o que me estimulava o gosto, a alma, basicamente coisas de cariz cultural», adianta.

Estavam estão lançados os dados para o jogo que se seguiria. «Apetecia-me qualquer coisa que aliasse a fotografia, a escrita e pessoas. Senti que estava a dar demasiadas opiniões minhas no Facebook, que me estava a expor demais, e a certa altura pensei que era mais interessante, com uma máquina na mão, pôr as pessoas a falar e ter um papel mais de ouvinte e de interface entre as pessoas, a quem eu reconhecia uma necessidade enorme, ao mundo em geral, de se expressarem sem julgamentos», recorda. Foi então que, por intermédio de uma sobrinha, conheceu a página Humans of New York, projeto com o qual se identificou por «corresponder bastante» àquilo que tinha em mente.

Nasceu, então, o Nós nos Outros. O título de cada história é a única coisa que nasce da cabeça de Maria Helena da Bernarda, tudo o resto é a reprodução do que foi dito por cada pessoa. Afirma que «o único filtro» que usa é o do «bom senso»: «Às vezes, as pessoas abrem-se tanto, tanto, que acabam por estar a contar pormenores que poderiam afetar ou entrar na intimidade de um filho, do marido ou da mãe, e às vezes há pormenores que eu evito escrever exatamente porque penso que essa pessoa se pode vir a arrepender de ter dito ou pode ter problemas com isso», assume.

Uma das suas grandes vitórias é que, até aqui, «ninguém, depois de ler a sua história, se tenha arrependido de a ter contado». «Há um grande agradecimento, as pessoas ficam contentes de terem sido abordadas e é bonito. Fica toda a gente contente. Ficam os leitores e fico eu por ver esse elo que se cria entre as pessoas e os comentários que fazem, tão generosos. É uma corrente tão positiva, tão boa, que me faz, de facto, ter vontade de continuar este projeto, enquanto for possível e não me faltar saúde, vai continuar», refere.

Histórias que marcam

Da lista já extensa que compõe a história do Nós nos Outros, constam não apenas pessoas anónimas, que Maria Helena foi encontrando na rua, mas também «pessoas com reconhecimento público e notoriedade, desde artistas, fotógrafos, advogados ilustres…». No entanto, a autora confessa que lhe «agrada mais» abordar pessoas de quem não sabe absolutamente nada. «É como abrir uma caixa de chocolates e provar um bombom sem saber se ele é de ginja ou de chocolate de leite», brinca.

Afirma que, olhando para as fotos, seria capaz de contar todas as histórias, mas assume que algumas a «marcaram bastante», algumas muito duras e outras pela identificação que sentiu com o seu protagonista. Maria Helena destaca uma em particular. Depois de realçar a sua paixão pelo piano, arte e objeto, lembra o dia em que entrou num centro comercial, no Saldanha, em Lisboa, que tem um piano no centro. Acercou-se de «uma senhora de muita idade, que estava sozinha» e abordou-a da sua maneira habitual. Depois de receber a resposta do costume, sentou-se a conversar com a senhora que acabou por lhe contar que ia para aquele local todos os dias, «porque quando era solteira – estava casada há 60 anos, tinha 88 – tocava piano». Quando estava prestes a ir para a sua nova casa, questionou o marido sobre onde colocar o seu piano e a resposta que obteve foi: «O teu piano não vai lá para casa, só se fosse para servir de bar, para pôr as minhas garrafas em cima». «A senhora ficou tão magoada que não falou mais no assunto, o piano não foi e acabou por ser vendido, para desgosto dela. Estava a contar-me isto e eu estava a chorar por dentro», lembra Maria Helena.

O hábito de ir para aquele centro comercial começou quando Gina, assim se chamava esta protagonista, soube que vários pianistas, à vez, atuavam naquele local, gratuitamente. «Com a crise do comércio, os pianistas foram sendo dispensados, um a um, até que o piano foi trancado e lá está. Só que a senhora habituou-se de tal forma a ir para ali e a ligação àquele piano foi tal, que continua até hoje a ir para lá todos os dias, sentar-se a olhar para o piano. A relação já não era sonora, passou a ser visual», explica a autora, também ela apaixonada pelo instrumento.

Maria Helena ficou «de tal maneira comovida» que decidiu convidar Gina para tomar um chá em sua casa. No dia agendado, lá esperava ela, com a sua canadiana «e uma rosa»: «Recebeu-me com uma rosinha e bateu-me palmas», até «arranjou o cabelo para a ocasião». Voltou finalmente a sentar-se a um piano, desta vez o de Maria Helena da Bernarda, e a sentir as teclas, coisa que já não fazia há seis décadas. Desde então, ambas mantêm uma relação. «Foi um momento feliz para ela e para mim também», afirma a autora.

Cerca de um ano depois, a história continuava. Maria Helena da Bernarda foi convidada a mostrar o seu projeto no programa Outras Histórias, emitido pela RTP, e convidou Gina para fazer parte dele. Com a estação televisiva montou uma surpresa: Mário Laginha, que havia sido também seu protagonista numa das história, tocaria, de surpresa, no piano do centro comercial. «Eu estava sentada com ela, a conversar, matávamos saudades, e de repente o piano abriu-se e começou a ouvir-se a música. Foi uma coisa lindíssima, Mário Laginha, que é o maior pianista português, tocou uma adaptação sua de uma música de Chopin, o compositor favorito dela. De repente, quando ela levanta os olhos, ficou completamente consternada e disse: “O Mário Laginha!…”. Quando acabou de tocar, o Mário Laginha vem ter com ela, cumprimentá-la e diz: “Vim aqui tocar para si”. Essa história foi especial», reconhece.

Do Facebook para as livrarias

Depois de alguma resistência aos vários comentários que pediam a Maria Helena da Bernarda que transformasse este projeto num livro, foi no final de outubro passado que a questão surgiu na sua cabeça: «Por que não?». De seguida outra: «Por que não antes do Natal?». Entre este momento e o lançamento do livro, passou cerca de um mês. «Foram noitadas atrás de noitadas para conseguir que o livro saísse a tempo, porque achava que era importante ganhar a possibilidade de o livro ser vendido como presente de Natal. Acho que é um presente lindo de se oferecer, é um livro humanista, de contos, é um livro que se lê com facilidade. É um livro de sentimento, que ajuda sem ser um livro de autoajuda, é um livro que eu acho que ajuda a tornar as pessoas melhores», frisa.

Foi ao fazer a seleção das histórias e a ordená-las nas páginas que diz ter percebido «porque é que as pessoas insistiam tanto que devia haver um livro». «Quando vi as histórias todas juntas, quando comecei a construir o puzzle, é como ter uma série de peças bonitas e quando começamos a encaixá-las vemos um desenho e o desenho era a humanidade toda a ali, em todas as suas facetas», considera.

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