Salomé Assunção: Ensinar a paixão pela dança
18 Fevereiro 2021
Catarina Correia Martins

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Catarina Correia Martins

Salomé Assunção tem 25 anos e é natural de Mira, no distrito de Coimbra. Desde há cinco anos que ser professora de dança é a sua profissão. Este não foi propriamente um destino que tenha traçado para si, desde pequena, ainda que o “bichinho” tenha estado sempre presente.

Foi quase por acaso que, em 2016, depois de terminar uma licenciatura em Comunicação Social, agarrou a oportunidade de dar aulas de dança. Por sugestão de um professor, cujas aulas frequentava há cerca de quatro anos, decidiu dar uma oportunidade a esta nova opção de vida. Desde pequena que «ligava a aparelhagem em casa», a mesma que ainda hoje tem, 20 anos depois, «punha os CD da Shakira» ou enrolava-se em panos para fingir que fazia dança do ventre, e «dançava no meio da sala para a mãe, para o pai, para quem lá estivesse», lembra. No entanto, foi só aos 17 anos que começou a frequentar as aulas. «Já comecei o meu percurso na dança muito tarde», afirma.

Quando terminou a licenciatura – que era o seu «plano A», já que quando entrou para o curso era uma “novata” e querer fazer da dança a sua profissão «era utópico» – diz ter ficado «na corda bamba», sem saber o que fazer, já que havia percebido que não era aquilo que se via a exercer «a vida toda». Foi então que o seu professor sugeriu que passasse a dar aulas, num local de que ele tinha que sair: «Precisava de um substituto e disse-me “Porque é que não vais? Tens jeito, já danças há alguns anos, és a minha aluna mais velha, experimenta”, fui e fiquei, até agora», recorda.

Começou então a sua aventura como professora de dança. Salomé explica que nas danças urbanas, que incluem estilos como o hip hop, o house, o popping ou o locking, «são danças de rua» para as quais não há um curso superior: «Não há ensino superior ligado às danças urbanas, há um curso superior de dança, mas é tudo de base clássica. Qualquer pessoa que tenha o gosto pela dança, que dance há muitos anos e que faça formação, pode começar a ensinar», refere. No seu caso, aceitou por ter «tido essa recomendação e porque também tinha muita formação, muitos workshops com professores nacionais e internacionais».

O desafio de ensinar

Começar a dar aulas foi um desafio. Apesar de conhecer algumas das técnicas «por imitação», por ver como os seus professores lhe davam aulas e de «já ter feito trabalho coreográfico», não se ficou por aí. Foi a algumas aulas do seu professor, apenas como expectadora para observar melhor o quê e como fazia, teve-o também nas suas primeiras aulas a dar dicas e fez «o trabalho de casa»: «Fiz muita pesquisa, estudei muito, mas tudo de forma informal», conta.

Quando começou, os seus alunos eram pré-adolescentes, tinham cerca de 12 ou 13 anos, mas hoje dá aulas a crianças desde os 5 anos até aos adultos. Confessa que «dar aulas aos mais pequenos exige outro tipo de trabalho e exige saber lidar com crianças, que foi um exercício muito grande, é precisa muita paciência», no entanto afirma que é também com estes que tem as maiores vitórias: «Vê-los a concretizar, a conseguir fazer, é das melhores sensações do mundo, é incrível. Colocares um menino ou uma menina de 5 ou 6 anos a fazer um passo pela primeira vez, depois de várias aulas sem ter conseguido, ver o sorriso na caras deles é qualquer coisa e paga tudo, paga mesmo tudo», sublinha.

Além de professora, continua como membro do grupo que a viu crescer, Gurillaz Dance Crew, e destaca a importância de um professor continuar a aprender: «No trabalho de bailarino, nunca se sabe tudo e isso é muito importante, é um trabalho que não tem fim, há sempre coisas a melhorar. E como eu já comecei tarde, tenho muito para melhorar». Mas não é apenas esta “missão” que a mantém no grupo, é também o «gosto» que lhe dá dançar: «Dá-me uma sensação super boa, é uma coisa que me faz bem, quando danço, transporto-me para um sítio onde fico bem. Sinto que preciso daquilo», revela.

As condicionantes trazidas pela pandemia

Hoje, dar aulas de dança não é, na realidade de Salomé, e de muitos outros professores, o mesmo que era há um ano. Devido às condicionantes impostas pela chegada da pandemia, as aulas decorrem agora em formato online, o que fez com que o grupo a que pertence perdesse muitos alunos. «Já tínhamos a experiência das aulas online do ano passado e agora, quando começou o confinamento, nem pensámos duas vezes», começa por avançar, acrescentando, no entanto, que há alguns constrangimentos, «principalmente para as crianças mais pequenas»: «Sobretudo o facto de não termos um contacto direto com elas leva a que acabe por haver um desinteresse da sua parte, é normal, são crianças. Passam uma hora a olhar para uma câmara, com um professor a falar e a mostrar passos, não é a mesma coisa que estarmos todos numa aula [presencial] em que eles conseguem interagir uns com os outros. É muito mais distante e, para as crianças mais pequeninas, acaba por ser muito limitativo, porque não dá para se ser muito criativo com as aulas», explica.

Este formato traz também algumas limitações práticas, como por exemplo, o facto de alguns alunos ficarem mais tímidos perante as câmaras ou não as ligarem de todo: «Como é que nós vamos dar feedback ao aluno se ele não liga a câmara?», questiona. Além disto, há também as falhas na internet que «dificultam um pouco», problema para o qual arranjaram a estratégia de, no final da aula, enviar um vídeo com o seu conteúdo para que quem não percebeu bem ou perdeu uma parte, possa consolidar os conhecimentos.

Também a questão financeira, na opinião de Salomé Assunção, tem o seu peso: «Muitos pais ficaram sem um grande suporte e percebe-se perfeitamente que cortem nas coisas que não são básicas». Na perspetiva da professora, o facto de terem tido já esta experiência no ano passado, pode ter feito com que alguns alunos, por não terem gostado, tenham optado por parar nesta fase. No entanto, Salomé acredita que quando voltarem ao ensino presencial «os alunos voltam».

O futuro

Agora esta é a sua opção de vida, aquela que a faz feliz, mas e de futuro? Salomé será professora de dança para sempre? «Quem é professor de dança sabe que esta é uma profissão que deixa de ser exequível quando se chega a uma certa idade, porque não temos sempre a preparação física de uma pessoa de 20 anos», avança. Além disso, refere que se pensar em construir uma família, não sabe se é isto que quererá sempre fazer, no entanto afirma que, para já, não tem planos. «Gosto de fazer muitas coisas e acho que ainda tenho muito que explorar. Tal como passei da Comunicação Social para a dança, não tenho receio de passar para qualquer outra coisa quando a dança deixar de fazer sentido na minha vida. Agora faz-me sentido e eu consigo viver disto», revela, acrescentando que «no dia em que deixar de fazer sentido, logo se vê».

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