Bárbara Roxo: Quando os livros podem fazer parte da solução
4 Março 2021
Catarina Correia Martins

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Catarina Correia Martins

Bárbara Roxo é uma apaixonada pelos livros «desde pequenina» e recentemente, depois de descobrir alguns conceitos novos relacionados com o tema, decidiu criar a iniciativa Biblioterapia com a Bá, que se materializa numa página no Instagram e outra no Facebook, que pretende dar a conhecer o conceito “biblioterapia” e levar os seus seguidores a entrar no “seu” mundo dos livros.

Animadora de formação, Bárbara Roxo, de 28 anos, diz ser, desde sempre, uma apaixonada pelos livros. Começou pela coleção Anita, passando depois às infanto-juvenis conhecidas de todos como Uma Aventura e, mais tarde, os romances. «Foi sempre uma coisa que me acompanhou muito e depois, durante a faculdade, tive a oportunidade de fazer um pequeno projeto, numa das disciplinas, ligado à literacia e à importância da literatura no campo infantil», recorda, afirmando que foi um dos trabalhos que lhe deu mais gosto fazer.

Já no mercado de trabalho e depois de, por motivos pessoais, ter abdicado de um emprego na sua área, surgiu uma oportunidade de trabalhar numa livraria do grupo Sonae. «Pensei: “Por que não? Já que não trabalho com uma área que gosto muito, trabalho com a outra”. Sempre pensei em trabalhar com crianças ou então em qualquer coisa relacionada com livros, o meu hobbie favorito», conta. Desde 2018 que este é o seu emprego e apesar de ter funções «mais ligadas ao visual merchandising, à exposição de produto e ao gift», diz que sempre teve «um carinho muito grande pela parte da livraria». Foi uma iniciativa da empresa, que empresta livros aos funcionários, que incrementou ainda mais o gosto de Bárbara e a fez «ler com mais intensidade», uma vez que possibilitou o acesso a um número muito maior de livros, que nem sempre «o poder económico permite comprar».

Montessori e a biblioterapia

Por ser um gosto seu, começou a fazer pesquisas sobre o tema e sobre «projetos ligados à literatura, à importância dos livros, da leitura e da escrita na parte infantil». As pesquisas levaram-na a um curso online sobre o método de Montessori, «lançado por Maria Montessori, uma psiquiatra italiana que defende que, essencialmente, os adultos têm de deixar as crianças fazer»: «A forma mais fácil de explicar o conceito é: a maior parte dos pais, hoje em dia, quando vê uma criança pequenina a tentar vestir-se sozinha e a vê um bocadinho atrapalhada, vai logo ajudá-la. Maria Montessori defende que se ajude as crianças a fazer sozinhas, os adultos podem estar por perto, podem e devem vigiar e auxiliar, mas de forma a que possam fazer sozinhos», começa por explicar.

Maria Montessori «criou [também] um método escolar diferente do tradicional. Numa escola com o método de Montessori, a criança não está sentada à secretária a ouvir o professor falar, na sala tem x atividades, que mudam com o tempo, e ela pode escolher sozinha, autonomamente, qual a atividade que quer fazer, se quer fazê-lo sozinha ou com um colega… O professor é só um avaliador da criança, alguém que está ali para ajudar, mais um mediador do que alguém que debita matéria para eles entenderem», explica Bárbara Roxo.

Também no meio das suas pesquisas, descobriu a biblioterapia, um conceito que, no fundo, já conhecia, mas a que não sabia dar nome. «Sabia que existia a ligação dos livros, saber que aquele livro é bom para aquela pessoa ou para aquela situação, era uma coisa que eu já fazia no meu trabalho, quando os clientes me procuravam para lhes aconselhar um livro para comprar», adianta. No entanto, foi estudando o conceito, percebendo no que consistia e percebeu que, em Portugal, está ainda pouco desenvolvido. «Eu só conheço uma biblioterapeuta [portuguesa], a Sara Barão Nobre, trabalha no contexto de empresa e faz muitos workshops», refere. No Brasil, há já «um estudo maior do conceito e muitos livros [sobre a temática] que são lançados lá e que não o são cá».

Foi, então, depois de conhecer bem os dois conceitos que pôde encontrar-lhes pontos comuns. «Acho que a parte da leitura é importante num e noutro. Uma das coisas que Montessori defende é que, além de os adultos lerem histórias para as crianças, eles têm que ler sozinhos à frente das crianças. Esse ato, leva a criança a entusiasmar-se e a querer ler também, funciona como um exemplo», esclarece. «A biblioterapia não é só a leitura do texto, o processo é a leitura e a reação e discussão do texto. A biblioterapia é o cuidar da pessoa através do texto, com a análise do mesmo. Para quem não conhece, a forma mais fácil de explicar é: quando uma pessoa ao ler o texto consegue identificar-se com a personagem e, ao ver como ela reage em determinada situação, pensar qual a melhor maneira de reagir na sua própria vida», explica. Este é um ponto comum ao método de Montessori, já que «é defendido que a leitura não termina quando se fecha o livro, para haver uma boa leitura, a criança tem de reagir ao livro».

Na prática, a biblioterapia pode ser aplicada «em várias situações e com vários públicos diferentes»: «Numa empresa, por exemplo, para conseguir resolver alguma situação, algum incómodo que haja entre o grupo. Pode ser também usada em hospitais, em escolas, em lares, individualmente ou em grupo…», avança. Pode ser usada para ajudar «alguém em depressão», casos de luto, «um desgosto amoroso», assim como «pode ser utilizada em situações de doença crónica ou psíquica, mas também em doenças físicas». «Por exemplo, uma pessoa que esteja com cancro, é uma situação difícil de gerir, a biblioterapia vai curar o cancro? Não, mas vai ajudar com a situação em si, ajudar a ultrapassá-la de uma forma um bocadinho mais positiva. A biblioterapia raramente funciona sozinha, mas sim como auxílio a uma terapia ou tratamento específico. É um bom complemento para outro tratamento que o doente esteja a fazer», explica.

Usar este conhecimento em prol do outro

Depois de estar tão familiarizada com a ideia e por ser um tema que lhe interessava tanto, Bárbara decidiu então que «era uma boa opção criar um projeto online»: «Uma página que me permitisse estar mais perto das pessoas com as quais não tenho contacto fisicamente e poder ajudá-las através dessa página, dar-lhes a possibilidade de me procurarem quando necessitassem de ajuda com os livros», explica. Tudo começou numa página de Instagram em que a jovem de Coimbra «dava algumas sugestões de leitura», especificando a idade e o tipo de pessoa para quem considerava adequada. Depois de descobrir a biblioterapia, achou que aquilo que fazia «não chegava» e que podia direcionar a sua página para esta nova ideia.

O objetivo principal, de uma página «ainda com poucos seguidores e com muito pouco tempo», é «esclarecer o que é a biblioterapia, em que consiste, onde é que pode ser utilizada e para quem». Além disso, Bárbara, que confessa dinamizar mais a página do Instagram, dá «sugestões de boas leituras, principalmente nesta altura em que está toda a gente em casa» e vai respondendo a «muitos pais» que pedem ajuda para novas atividades a fazer com os seus filhos. Essa procura deu origem a que Bárbara começasse a direcionar o seu conteúdo para a população infantil, a faixa etária com que mais gosta de trabalhar e por onde diz querer ir.

Com a página, gostava de poder «ajudar uma criança que, por exemplo, está a passar por um divórcio dos pais ou que está em isolamento e que depois volta à escola e não sabe lidar com esse regresso. Tudo isso pode ser trabalhado através da biblioterapia». «O meu grande objetivo é conseguir chegar a pais, educadores, professores, pessoas que trabalhem diretamente com crianças e que necessitem de ajuda e que eu ache que posso ajudar através dos livros», revela.

No futuro, «queria muito» que isto pudesse ser a sua vida. «Queria muito, muito mesmo, ter um espaço físico em que pudesse ter uma grande quantidade de livros, receber os meus clientes a nível de biblioterapia e não só. Gosto muito da parte da venda de livros. O que acho menos bom é o olhar para os livros como um bem material que se compra e vende. Se poderia ter venda de livros? Sim. Se seria o meu foco? Não. Mas gostava muito de poder ter um espaço físico para receber as pessoas e poder ajudá-las», reitera.

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