Sara Cruz: A Finlândia como palco para a “sua” ciência
18 Março 2021
Catarina Correia Martins

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Catarina Correia Martins

Sara Cruz é natural de Coimbra mas há três anos que mora em Oulu, Finlândia, «a cerca de 100 quilómetros da Lapónia, onde vive o Pai Natal». Foi a tese de doutoramento que a levou até ao norte da Europa, mas são as perspetivas de futuro, quer pessoal, quer profissional, que a fazem pensar em ficar.

Licenciada em Bioquímica e mestre em Investigação Biomédica, Sara Cruz, de 26 anos, em janeiro de 2018 rumou à Finlândia para fazer a sua tese de doutoramento. «Quando acabei mestrado, sabia que queria fazer doutoramento fora de Portugal, mas nunca me limitei por países. Queria escolher um tema de doutoramento que me fascinasse e depois logo se via o que me calhava na rifa, em termos de país. Acabei por ser aceite na Finlândia e achei um desafio interessante por ser um país e uma cultura tão diferente da nossa», conta.

Confessa que «a nível social», a adaptação «foi complicada». «Nas primeiras duas semanas, não tirei as roupas das malas!», revela. «Não conhecia ninguém, estavam 18 graus negativos e por isso não se via ninguém nas ruas, era tipo uma cidade de deserta e só havia três horas de sol», adianta. Considera que essa dificuldade inicial adveio muito do facto de «a natureza dos finlandeses ser mais fechada». «Até conhecer primeiro alguns estrangeiros que me foram introduzindo no meio, foi difícil. Depois conheci uma portuguesa que me apresentou ao resto dos portugueses e temos um grupo muito unido», avança, acrescentando que essa é uma «boa base» pois, juntos, podem partilhar «as nossas comidas e falar a nossa língua».

Um mundo de novas experiências

Apesar desta dificuldade inicial, Sara Cruz aponta que tem sido uma «experiência muito interessante» e enumera algumas razões: «No verão não há noite e no inverno não há dia. Posso ver autoras boreais muitas vezes ao ano – aliás, para os finlandeses é uma coisas super comum e acham muito engraçado eu andar sempre à caça do próximo espetáculo. Como vivo bem a norte, temos muita neve, cerca de sete meses por ano. Aprendi que não posso fazer bonecos de neve com qualquer temperatura e que, mesmo com – 30 graus, a cidade não pára e temos de ir trabalhar. Descobri que rena e um prático típico e não só o meio de transporte do Pai Natal. Os finlandeses são muito mais frios e é muito mais difícil de fazer amizade, mas quando ficam teus amigos, são-no para a vida», afirma.

A língua podia ter sido uma barreira, mas «graças a Deus toda a gente fala muito bem inglês», o que permite a Sara fazer a sua vida «tranquilamente». Se assim não fosse, sabe que «seria muito difícil porque o finlandês é uma língua super complicada» da qual apenas aprendeu o básico. Ainda que «toda a cultura seja muito diferente» aquilo que mais lhe «custa aceitar são os horários das refeições. Numa família tipicamente finlandesa, almoçam às 10h30 e jantam às 16 horas», conta.

Escuteira desde criança, em Portugal, também na Finlândia acabou por ingressar no movimento que lhe trouxe, mais experiências para contar. «Quando cheguei aqui e não conhecia ninguém, o meu supervisor pôs-me em contacto com um grupo de escuteiros. Comecei a chefiar um grupo de escuteiras de 10 e 11 anos e no ano a seguir mudei para um grupo de meninos da mesma idade», começa por revelar, desvendando, todavia, que lá, «os escuteiros são muito diferentes». «A realidade é que esperava encontrar uma família, como no meu agrupamento em Portugal e, na verdade, não tenho um único amigo dos escuteiros daqui», revela. Porém, não deixa de apontar pontos positivos, sobretudo por ser um «desafio diferente» que lhe permite, por exemplo, «acampar na neve, com tendas com fogões lá dentro para fazer lareira e aquecer as tendas».

Mas, Sara, qual é o teu trabalho?

Na sua tese de doutoramento, Sara Cruz está «estudar como é que o cancro da próstata passa a ser muito agressivo e invasivo, levando à formação de metástases». «Este cancro, apesar de ser o mais diagnosticado em homens no mundo inteiro, não é dos mais mortais, porém, se ficar agressivo, forma metástases e pode levar à morte rapidamente», explica, acrescentando que o seu projeto pretende «descobrir maneiras de diagnosticar estes cancro agressivo, para sabermos melhor que tratamento usar ou até remover o tumor».

De futuro, sabe que quer «continuar a fazer investigação que tenha impacto na vida das pessoas», seja «numa universidade ou numa indústria farmacêutica». Por isso, regressar a Portugal está no seu horizonte apenas para passar férias. «Quando entrei em Bioquímica disse logo aos meus pais que er para sair de Portugal. A triste realidade é que cientista ainda não é uma profissão reconhecida no país. Os cientistas, basicamente, vivem de bolsas e não podem ter qualquer estabilidade. Por isso, a não ser que mude de profissão, muito provavelmente só volto na reforma para esse país tão fantástico mas que não nos oferece condições competitivas em relação aos outros países», lamenta.

Assim, a Finlândia, apresenta-se como uma boa opção: «Vejo-me aqui pelo menos até acabar o doutoramento, talvez mais um ano. Mas como tenho uma relação aqui e o país tem condições muito boas, talvez fique por cá», revela. As saudades são mesmo o pior, «da família, dos amigos», sobretudo agora, uma vez que, por culpa da pandemia, já faz mais de um ano desde a última vez que veio “ver os seus”. Na lista do que sente falta, aparecem de seguida «a comida, o sol e o mar».

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