Rafael Vicente: Do obstáculo fez um trampolim
8 Abril 2021
Catarina Correia Martins

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Catarina Correia Martins

«Partilho a minha história porque posso ajudar alguém a sair de um momento mau ou, se não estiver a passar por um desses momentos, a aproveitar a vida da melhor maneira». A frase é de Rafael Vicente, de 27 anos, natural de Arzila, no concelho de Coimbra, que aceitou o convite do Populus para contar a história do acidente que lhe mudou a vida.

Rafael Vicente tinha 22 anos quando, a 10 de março de 2016, no regresso do trabalho teve um acidente de viação que o deixou sem um braço e com graves mazelas numa perna. «A minha memória fez reset a tudo o que eu fiz naquele dia. Nem costumava ir por aquela estrada. Não me lembro de nada do acidente», começa por dizer. «Há quem diga que eu ia ao telemóvel, coisa em que eu não acredito porque, pelo que me disseram, o telemóvel estava no bolso. Há quem diga que me distraí com alguma coisa, mas aquilo foi um acidente sem travagens, sem nada. A meu ver, àquela hora e naquele sítio, o sol está muito baixo, naquela altura não usava muito óculos de sol, se calhar levantei um pouco o olhar, ceguei e desviei o carro», põe como hipótese o jovem que, até hoje, diz não ser capaz de se recordar do sucedido, nem sequer do que fez no seu local de trabalho, nesse dia.

O embate deu-se com uma carrinha de transporte de gás, que circulava em sentido contrário. «O meu carro bateu de quina. A carrinha não teve praticamente estragos nenhuns. Eu tinha um carrito antigo, apanhou a lateral toda da carroçaria [do outro veículo], aquela parte da carrinha é bastante resistente, é aço, não verga. Se calhar estava a conduzir com o braço apoiado na lateral da porta, houve o arrancamento da porta e o meu braço deve ter ido atrás», relata Rafael.

Depois de ter perdido muito sangue e de ter «a sorte» de acorrerem ao local algumas pessoas que fizeram de imediato um garrote, foi transportado ao hospital, já inconsciente, onde os médicos terão dito que «nunca viram um braço assim, os ossos estavam todos triturados», revela. «Dizem que não havia mesmo hipótese, era amputar um pouco mais a baixo ou um pouco mais acima. Pela gravidade e pelo sangue que perdi, optaram por cortar mais em cima», conta. Além disso, fez uma fratura exposta no fémur.

Esteve dois dias em coma induzido e foi ao acordar que se deparou com todo aquele cenário: «Olhei para o lado e não estava lá o braço». «Não me recordo muito dos primeiros momentos, mas lembro-me de acordar, ver que não tinha braço e e estava com a perna cheia de ferros, e as lágrimas caírem-me dos olhos, percebi que se tinha passado alguma coisa, algo estava mal. Foi o pior choro da minha vida, no sentido de nem saber o motivo, era chorar por chorar, foi uma sensação que até hoje não consigo perceber, foi o choro mais puro que tive na vida», admite.

Esteve internado cerca de um mês e meio a que se seguiram vários meses de muito descanso, mais uns tantos de cadeira de rodas e depois de canadiana. Nesta recuperação, aponta que o mais difícil foram – e continuam a ser – as dores no braço que perdeu. «Esta dor no braço, só quem é amputado percebe, é uma dor que mais ninguém consegue sentir, é impossível. É uma sensação única, como se tivéssemos aqui o braço e não está aqui nada, mexemos os dedos, tocamos numa unha… Ainda hoje sinto. São dores que são para a vida», conta.

O antes e o depois

Muito ativo no que ao desporto diz respeito, jogador de futebol de forma federada e praticante de outros desportos a título mais informal, confessa que não foi nisso que pensou. «Queria recuperar, principalmente a nível motor, e para o dia-a-dia, depois pensar mais além e criar etapas», recorda. Porém, afirma que havia um Rafael pré e um outro pós acidente. «Não sei ao certo onde estava este meu eu antes do acidente. Era uma pessoa muito mais negativa, com pouca auto-estima, pouco à vontade para falar em público ou ao pé de desconhecidos, super tímido, em certa parte não gostava de mim…», adianta, afirmando que «a nível mental, social, de auto-estima e amor próprio, o acidente fez aparecer uma nova pessoa ou renascer uma que já existia mas estava escondida atrás de outra personalidade». «Olho para trás e sinto que perdi anos de vida a ser aquela pessoa», atira. «Não era má pessoa, simplesmente não gostava da vida que tinha e da pessoa que era», esclarece.

O desporto não ficou, no entanto, totalmente de lado. «Acompanhava a equipa onde eu jogava. O meu irmão é treinador, segui-o para outro clube, mas mantive-me ligado, porque não senti que devesse desligar-me de tudo o que eu era, acho que não era a solução. Manter a bola perto, estar com pessoas de quem eu gosto, a ver o desporto que eu gosto, ia fazer-me bem e sentia-me útil, em vez de estar deitado na cama, a olhar para uma televisão e a pensar no que podia ter sido», revela. «Se me fechasse no meu quarto, a pensar no que podia ser antes do acidente, não era bom para ninguém, ia arrastar a minha família, que gosta de mim, para um buraco nego. O desporto fez-me o que eu sou, porque sempre foi a minha vida, acho que deixava de ser eu se largasse o desporto», considera.

Hoje, nem só de bola se faz a sua vida. Apesar de ter voltado a jogar futebol, com os veteranos, «uma coisa mais soft», descobriu o crossfit através de um amigo. «Não sabia nada da modalidade. Fui experimentar, gostei, achei que podia ser um bocadinho a minha imagem, uma modalidade cheia de desafios, todos os dias um treino diferente… Estimula muito o querer e a vontade de terminar as coisas, revi-me muito na modalidade», refere. Para a sua evolução, diz que segue atletas com limitações semelhantes às suas que fazem exercícios que Rafael ainda não é capaz de fazer. «Ainda não consigo, mas vejo que é possível. Apesar de poder tentar a vida toda e não conseguir, sei que é possível e isso faz com que eu tente», remata.

O mundo do trabalho

Atualmente, continua a trabalhar na mesma empresa onde estava há cinco anos, antes do acidente, ainda que hoje tenha funções diferentes, adaptadas ao que são as suas limitações. «Poder continuar lá é bom porque precisamos de rendimentos e de sentir que fazemos algo. O trabalho é importante mentalmente», afirma. «Há coisas que eu sei que não faço. Por exemplo, para pôr um agrafo, tive de arranjar as minhas próprias técnicas, para pôr um papel dentro de uma mica, para apertar um fecho, tenho de criar soluções. Mas se não conseguir, não sou dos que não pede ajuda, não somos nada neste mundo sem os outros», refere.

Uma vez que regressava do trabalho quando se deu o embate, foi coberto pelo seguro, tendo conseguido obter uma indemnização e alguns apoios, nomeadamente, na aquisição de uma prótese. «No início estava bastante motivado e o meu corpo até respondia. Só que como eu tenho uma amputação relativamente superior, não tenho grande destreza nos músculos», o que tornou a utilização da prótese incómoda e pouco útil. «Estava a usá-la meramente por uma questão estética e, esteticamente, sinto-me muito bem, não tenho complexos nenhuns», afirma. Aos poucos deixou de a usar e adaptou a sua vida à condição que passou a ter.

Hoje, diz-se uma pessoa feliz. «Foi preciso perder o braço para acordar para a vida, se calhar foi uma oportunidade para mim», conclui.

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