Catarina Ferreira: Escolher a profissão e acertar em cheio
29 Abril 2021
Catarina Correia Martins

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Catarina Correia Martins

Catarina Ferreira trabalha com empresas e com pessoas, ensina-as a melhorar a sua comunicação, a ser mais produtivos, melhora, no fundo, as suas capacidades a nível comportamental e das relações interpessoais. No entanto, isto é mais do que o seu trabalho, na verdade retrata a sua forma de estar na vida e diz mesmo que não se imagina a fazer outra coisa.

Natural de Coimbra, mas há vários anos a morar em Lisboa, Catarina Ferreira, de 28 anos, como diz, tem a sorte de ser paga para fazer exatamente aquilo de que gosta. Na prática, trabalha numa empresa de recursos humanos, onde elabora programas de formação para outras empresas, programas esses que têm como intenção «mudar o comportamento dos trabalhadores, não são coisas técnicas, como conduzir uma empilhadora», são antes ferramentas que permitem o melhoramento das capacidades emocionais de cada um.

Conhecendo um pouco do seu percurso e por considerarmos que toda a gente é fruto das experiências que vive, optámos por ir à origem das coisas, da sua vida e à génese daquilo que é hoje. Catarina Ferreira afirma que teve uma infância «super» feliz. «E quanto mais cresço, mais tenho a noção do privilégio que foi crescer com as pessoas com quem eu cresci», acrescenta. A sua família tem um papel preponderante e não pode deixar de destacar os pais que, «mesmo sem saberem, aplicaram uma série de coisas que se podem ligar à parentalidade positiva»: «A questão de não me baterem, não gritarem comigo, procurarem sempre conversar, serem muito presentes, muito atentos. E mesmo na fase da adolescência em que não dei grandes problemas, mas se calhar dei mais preocupação do que aquilo a que estavam habituados, foram sempre muito compreensivos, ajudaram-me a perseguir os sonhos e as coisas em que eu acreditava, sempre a criarem aquele vínculo que é tão forte que sabemos que nada pode estragar e que permite ter liberdade para voar», afirma.

Outro dos pontos marcantes do percurso de Catarina foi a sua cerca de uma década no Escutismo. Entre risos atira que «devia ser quase obrigatório [fazer parte do movimento], toda a gente devia passar uma temporada nos escuteiros». Desse tempo, considera que lhe ficou «o espírito de desenrasque, de relativizar as coisas e para cada problema surgir uma solução, lá tem que surgir, e depois isso leva-se para a vida». «Algo que nos marca muito também desde pequenos é a ideia de estar “aqui” para fazer qualquer coisa, para contribuir, a ideia de BP [fundador do Escutismo] de todos os dias fazer uma boa ação, de ser uma gota de um oceano maior. Acho que isso fica, fica a ideia de que estamos aqui para cumprir um propósito, para contribuir para algo maior do que nós», afirma, não esquecendo os valores de «colaboração, de equipa, o aproveitar as coisas simples da natureza…».

Querer sempre mais

Acabou por sair do movimento na adolescência, e ainda que mais tarde tivesse «tentado voltar», foi um capítulo que acabou por fechar, dedicando-se a projetos de voluntariado. Alguns deles aconteceram devido a trabalhos da escola e foram de vários âmbitos, porém e apesar de «gostar muito de ir», «sentia que não era bem aquilo» que procurava e que a fazia feliz. Foi, então, na faculdade, durante o curso de Psicologia, que desenvolveu, com uma amiga, o Projeto Forrest. «Quando nasceu foi uma espécie de brincadeira, queríamos aproveitar o tempo para fazer qualquer coisa que nos desse prazer e que fosse também uma boa ação para com os outros», começa por explicar.

A primeira ação que puseram em prática aconteceu num 31 de dezembro. «Juntámo-nos, éramos cinco ou seis, e fomos à polícia, às maternidades, aos Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra, e a mais uma série de sítios onde sabíamos que as pessoas estavam a trabalhar para os outros e não iam poder gozar a passagem de ano. Fomos lá só agradecer. Levávamos uns doces, umas cartolinas e uns balões e fomos», conta. «Ninguém nos pediu para fazermos aquilo e também não sei se teve um impacto assim tão grande na vida daquelas pessoas, mas fê-las sentirem-se felizes naquele momento e só por isso já valia a pena», recorda.

O projeto cresceu e acabou por ter direito a reportagens na comunicação social nacional, tendo-se mesmo tornado, durante alguns anos, numa estrutura organizada com pessoas de vários cursos. «Não sei se se chama a isto voluntariado, tenho a certeza que fazíamos os outros felizes, mas também havia aqui um lado quase de egoísmo, porque o prazer que sentíamos a fazer estas coisas era tanto, que nos alimentava muito», remata.

Depois da licenciatura e do mestrado integrado na mesma área, seguiram-se pós graduações, doutoramento e como gosta «muito de aprender», está «constantemente a tirar cursos», a ver o que pode «acrescentar». Diz que é «um poço de curiosidade» porque «há tanta coisa no mundo que se pode explorar e aprender» que não quer ficar só por uma. «A minha palavra preferida deve ser curiosidade, mas é muito ingrato, porque é infinito, há sempre mais coisas para saber, não termina», refere.

Experiências com repercussões

Afirma que «a faculdade, só, não chega»: «A faculdade é apenas uma fatia daquilo que temos de fazer na vida para estarmos mais próximos da versão de nós mesmos que gostaríamos de ser», atira. Por isso, «tudo o que sejam experiências que te acrescentam, são experiências a que te deves entregar», considera. Assim, no ano em que estava a terminar o seu mestrado, foi «bater à porta de escolas para perguntar se podia dar programas aos professores, aos auxiliares, aos alunos, de mindfulness». Essa experiência deu-lhe bases que, mais tarde, aproveitou para escrever dois livros já publicados. «Os livros surgem das experiências em escolas e daquilo que eu testei com os professores, com os auxiliares, com os miúdos mais pequenos, com alunos que iam entrar na universidade», revela.

O primeiro, Virtudinário, é «sobre a aplicação da psicologia positiva no dia-a-dia, mas é sobretudo voltado para miúdos». O segundo, Pequenos Heróis na Missão de Salvamento da Floresta, é «a aplicação do mindfulness na educação emocional, mais uma vez, também para miúdos». «Ambos têm uma pequena parte teórica, mas depois têm, sobretudo, exercícios, são programas práticos de coisas que se podem fazer na sala de aula, em casa, para que as crianças possam conhecer-se melhor, gerir melhor aquilo que sentem, interagir melhor com outras crianças, desenvolver a auto-estima, a auto-competência, descobrir os seus talentos…», explica.

Acredita que hoje «a sociedade valoriza cada vez mais» o seu trabalho, mas considera que a chegada da pandemia veio ajudar nisso mesmo: «Quero acreditar que veio trazer alguns consciência sobre a importância de sabermos gerir-nos, motivar-nos, a importância de trabalhar em equipa», diz. Para si foi «um tempo de grande compreensão, de perceber que o que fazemos tem, realmente, um impacto no mundo à nossa volta».

Uma profissão que é a extensão de si própria

Catarina considera-se uma mulher «completamente» realizada a nível profissional. «Acho que arranjei uma maneira de alguém me pagar para poder estudar e falar sobre estas coisas de que gosto… E criar, que a parte da criatividade é importante para mim», afirma. Por isso, crê que não é possível separar a Catarina-profissional da Catarina-pessoa. «Quando encontras o caminho, essa dissociação deixa de existir. Dou por mim, mesmo fora do trabalho, a ler coisas, a tomar apontamento e a pensar “não me posso esquecer de inserir esta informação no programa tal”. Dou por mim a fazer reflexões para os meus amigos [nas redes sociais], a tentar aplicar estas coisas na minha vida, na minha interação com os outros…», avança.

Por isso diz que se se projetar daqui a dois ou três anos, acha que a sua vida não será muito diferente do que é hoje. A única exceção para essa previsão é a possibilidade de, nessa altura, sentir-se já «outra pessoa, ter desenvolvido outros gostos, ter aprendido outras coisas e ser algo completamente diferente» do que é hoje.

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